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José Ari F. Júnior - Tatakae!
Por José Ari F. Júnior - Tatakae!
Nerd e estudante de engenharia elétrica.

Não Olhe para Cima

Publicado: 07/01/2022 às 14:59

Para comentar sobre essa obra é necessário falar sobre ficção e realidade, não há outra alternativa. “Don’t Look Up”, filme do diretor Adam McKay estrelado por dois vencedores de Oscar Leonardo Di Caprio e Jennifer Lawrence, além de um elenco grandioso com Cate Blanchett, Rob Morgan, Jonnah Hill, Meryl Streep, Timothée Chalamet, Ariana Grande... entre outros, debocha muito da nossa realidade, do nosso cotidiano e a forma como o mundo lida com os problemas climáticos, em todas as escalas.

A sinopse oficial do filme: Dois astrônomos medíocres descobrem que em poucos meses um meteorito destruirá o planeta Terra. A partir desse momento, eles devem alertar a humanidade por meio da imprensa sobre o perigo que se aproxima. Essa é a sinopse oficial da obra, nenhuma palavra é minha, 

Temos na nossa frente um dos grandes concorrentes ao Oscar 2022, estará presente em diversas categorias, um bom filme, porém é uma excelente sátira, e nesse quesito o longa se destaca e entrega tudo o que o espectador espera.

Como foi dito anteriormente, um cometa está vindo em direção a terra e o foco do filme é mostrar todo o conflito político, como o governo, os veículos jornalísticos e a mídia digital reagem a essa informação. Apenas para deixar claro, é uma sátira relacionada as mudanças climáticas, não a vacina ou ao Covid-19, porém ao estarmos passando por esse momento histórico, é muito fácil relacionar e trazer para o nosso mundo, não que os problemas climáticos não estejam nos afetando, mas o filme caiu como uma luva para a população brasileira, uma vez que a forma como o nosso governo se comportou e se comporta durante toda a pandemia é incrivelmente parecida com tudo no filme. Porém não podemos olhar apenas para o nosso umbigo, não contratariam uma série de estrelas para satirizar o governante do Brasil e todos a sua volta, mesmo eles sendo dignos de um filme de terror. Em um contexto mundial, somos governados por pessoas que agem da mesma forma que uma série de personagens extremamente caricatos, e isso é muito assustador! 

Trazendo para o nosso universo novamente, um mundo lotado de Fake News e principalmente de um negacionismo monstruoso, o filme trata muito bem esse segundo item, aliás nos mostra dois tipos de negacionismo: 

O primeiro e mais famoso, que ataca a ciência e os cientistas, questiona dados, ações e tratamentos. 

O segundo é menos discutido, porém é o mais comum, que reconhece a ameaça, porém apresenta falsas soluções, trabalha principalmente através do medo e em situações não tão extremas, menospreza a ameaça e sempre apresenta soluções ineficazes, que na maioria das vezes só agrava a situação.

Foto: Isac Nóbrega/PR

O número grande de estrelas no elenco do longa talvez tenha prejudicado um pouco o desenvolvimento do roteiro, pois o foco acaba se voltado para os personagens, que repito, são caricatos, a mídia se torna extremamente política e chata, facilmente manipulada, talvez esteja sendo um pouco crítico demais, pois não está tão longe da nossa realidade. 

Falando em realidade, vamos ao estado da Bahia que vem sofrendo com os impactos das chuvas, alagamentos e enxurradas, tudo isso é comum, mas é notável como as coisas estão piorando ano após ano em todo Brasil e no mundo. São mais de 822 mil pessoas afetadas em pelo menos 164 municípios, e isso não é normal, especialmente porque essa situação tende a ser mais e mais comum.

Estamos falando de eventos extremos relacionados à mudança climática e como ficam mais frequentes e mais intensos conforme o tempo vai passando, e é necessário perceber que não estamos preparados pra lidar com esses eventos. A luta por justiça climática, é a luta por mitigação e por adaptação, a mitigação pra tentar conter o avanço da mudança climática e adaptação para que as comunidades se preparem melhor.  

Nos dias de hoje a nossa adaptação está beirando a zero, podemos perguntar por aí:  o que os governos realmente estão fazendo para evitar essas situações? Pra que cidades tenham temperatura média mais regulada? Para que quando chova muito e os rios subam, eles não tomem conta das cidades e afete os cidadãos? Não entra dentro deste contexto, mas acabamos de ver o centro de Camaquã alagado nesta semana, isso é normal? deveria acontecer? Pensar apenas no desenvolvimento desenfreado, sem levar em conta as consequências dessas ações, isso irá nos deixar a mercê, nos trará mais e mais problemas com o decorrer do tempo.

 Se estamos falhando na mitigação, especialmente porque o mundo se rendeu a falsas soluções como do mercado de carbono e seu "zero líquido", estamos falhando demais na adaptação também, e comunidades já marginalizadas são as que mais perdem, sempre foi e sempre será assim. Por isso não basta falar em "acreditar na ciência", não é suficiente só ser diferente do negacionismo do Trump ou do governando do nosso país. É preciso levar em conta a ciência do clima como um todo, inclusive na ciência social que trata de políticas públicas e denuncia falsas soluções, e é preciso cobrar das organizações da esquerda e da direita, porém principalmente da esquerda que sejam realmente coerentes na luta por justiça climática. É muito fácil notar quando organizações e ongs se posicionam só por oposição ao governo ou pra não ficarem de fora das pautas, isto é extremamente oportunista e triste, pois os efeitos dessas discussões cairão sobre nós e no fim das contas não passamos de marionetes sendo jogados de um lado para outro por pessoas que nos enxergam apenas como números. 

E a conclusão do filme não passa muito longe disso, podem até me criticar, mas eu estava torcendo pelo meteoro, diante da forma como as pessoas e o governo reagiu diante do problema. A polarização, o viés financeiro, que mesmo diante de uma catástrofe que iria exterminar a vida na terra, estava sendo levado em conta. Tudo isso vai nos deixando cada vez mais cabisbaixos, tristes e sem esperanças de que os nossos governantes irão tomar as medidas corretas se algo nesse sentido ocorresse. Essa situação extrema, que demandará uma medida drástica, se tiver algo que possa ser feito, cairá sobre os nossos filhos, netos, talvez bisnetos, mas irá acontecer e tenho muitas dúvidas de que nesse momento, as autoridades irão tomar as medidas certas. Não olhe para cima é uma sátira absurdamente real, que apenas nos mostra o quão essa polarização e esse negacionismo irá nos prejudicar, nos resta a esperança de que consigamos fazer com o que o final das telinhas seja diferente da vida real!