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Nelson Egon Geiger
Por Nelson Egon Geiger
Advogado

O ATUAL DESENCANTO DE SER BANCÁRIO: A História Não Contada do BB de Camaquã (IV

Publicado: 09/06/2021 às 16:42 | Fonte: Nelson Egon Geiger

Condensado nos artigos anteriores o quadro funcional do Banco do Brasil quando transferiu a agência de onde está a Panvel para o hoje Banrisul. Somente homens. Inexistiam mulheres funcionárias. 

Pelo Código Civil brasileiro de 1916 havia um disparate. Mulher casada não tinha plena capacidade civil. Contrário das solteiras maiores de 21, viúvas ou desquitadas (não havia divórcio). O inciso IV, do art. 6º, colocava a mulher casada com capacidade relativa, junto com menores de 21 (mais de 16), silvícolas e pródigos, só foi alterado pela Lei 4.121, de 27.08.1962, alcunhada de Estatuto da Mulher Casada. Que também alterou o art.246, permitindo a mulher casada exercer qualquer profissão.

Absurdo, não é? Mas era a realidade jurídica do País. Antes a mulher casada, por exemplo, não podia abrir conta corrente em banco sem autorização do marido. Parece criancice; mas era o que acontecia.

Com o advento da Lei as mulheres, antes impedidas (mesmo as solteiras) de fazer concurso público ficaram liberadas. Na verdade: mais competentes, estudiosas, eficientes espalharam-se por todas as profissões. Cito um conhecimento pessoal: a 1ª mulher a ser gerente de um banco: Carmem Hanquet, colega no antigo Banco Agrícola Mercantil. Era assistente da Diretoria: Kurt Weisshmer; Otto Kaminski e Egydio Michaelsen. Este em 1962 foi candidato a Governador do Estado. Perdeu para Hildo Meneghetti.

Aprovado pelo BB falei para a Carmem que viria assumir em Camaquã. Ela me disse: “Lá eu tenho um primo; é o padre Luiz Walter Hanquet, procura ele e diz que ser meu amigo”. De fato o fiz. Ela foi gerente do Banco Aliança no Rio, comprado pelo Agrícola Mercantil.

Com o tempo aquela Lei passou a ter plenitude. Assim, em 1966 foi o último concurso que apenas ingressaram homens. Em Camaquã: Erni, Becker, Chiquinho e Emiliano. No concurso seguinte (1967) ingressaram as primeiras mulheres. Assunto para próxima semana. Porque antes de finalizar conto uma história real ocorrida no BB.

O fiscal da Carteira Agrícola, Álvaro. Vistoriava um cliente que desviava as normas do Banco de aplicação de financiamento. O Álvaro se desentendeu com ele; discutiram; o financiado foi insolente. 

O Banco era rígido na fiscalização dos créditos. Houve necessidade de voltar àquele cliente. O Álvaro pediu para não ir. Através da comunicação comum na época: o famoso “memo”. Memorando escrito à máquina com as ponderações. Pediu: “senhor gerente mande outro em meu lugar, face o que vem ocorrendo, pois, se insistir que seja o signatário, de lá voltará ou um covarde ou um morto”. 

Memo era um formulário em 03 vias. Buscado no almoxarifado com o Abreu, como o 03/14 famoso papel para cartas, contratos e cédulas rurais. Todos batidos à máquina. Velhos, saudosos e bons tempos.

EDIÇÃO de 09 de junho de 2021.