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Oi moço, o senhor quer comprar voto?


Por Redação Clic Camaquã Publicado 18/06/2020
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Esta frase, que também poderia estar no feminino, ecoava pelas ruas da cidade nos anos 1970, período em que fiz o primário e o ginasial. Os poucos divertimentos, especialmente para crianças mais pobres, eram os que a escola oferecia, em particular em datas comemorativasentre elas é claro as festas juninas.

Naqueles dias de chumbo da ditadura militar, nas cidades pequenas pouco se sabia das atrocidades que ocorriam no centro do país, e mesmo na capital, Porto Alegre. Isto que tínhamos em Camaquã um prefeito injustamente cassado – o falecido Hilson Scherer Dias – que vivia recluso em sua própria casa. Um de seus filhos, inclusive, era nosso colega de aula no Colégio Sete de Setembro.

Nas festas juninas das escolas principalmente as que celebravam o Padroeiro São João Batista, costumava-se coroar uma prenda ou rainha. Para receber a faixa as candidatas precisavam vender votos, isto mesmo vender votos. Desnecessário dizer que uma menina de família humilde por mais bela e elegante que fosse, com raríssimas exceções, teria condições de vencer tal concurso.

Chegava a ser engraçado as meninas batendo nas portas e abordando pessoas nas ruas com a frase: Oi moço, o senhor quer comprar voto? Os meninos também entravam na inocente brincadeira, e saiam a vender votos, de preferência para aquela menina, que independente do resultado já era uma rainha – a eleita do seu coração.

No dia da festa chegava a ser tocante ver as meninas felizes da vida dirigindo-se às professoras para entregar seus votos vendidos – uma cartela onde o “eleitor” mediante certo valor marcava seu voto com um x (uma cruzinha como se dizia, erroneamente).

Nestas disputas era comum presenciar duas meninas de mais posses praticamente empatadas. E era lindo de se ver o pai com maior poder aquisitivo chamar a diretora ao lado, e comprar cartelas inteiras para que a filha viesse a ganhar. Houve um caso, inclusive, que o pai abonado, sem nenhum pudor, puxou do talão de cheques na frente de todo mundo, e orgulhoso comprou mil votos para a futura prenda da escola julgando que assim estava fazendo a sua parte visto que a renda da “compra de votos” era investida em melhorias no colégio.

Belo aprendizado escolar dos tempos da ditadura: ensinar aos pequenos a arte de comprar votos, e mais do que isso: passar a mensagem subliminar de que uma menina pobre jamais seria rainha, pois seu pai não teria condições de comprar votos suficientes para eleger a filha amada. Se São João aprovava certamente nunca iremos saber.

Clic Humor com Sabedoria: “Eleição não é festa. Se fosse festa, o eleitor seria convidado, e não obrigado a votar.” (Rutra Larama)


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