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Liliana, a dama dos festejos farroupilhas de 2021 – Joaquim Moncks (*)


Por Redação Clic Camaquã Publicado 15/09/2021
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A coluna desta semana será um pouco diferente do habitual abrindo espaço para o poeta e grande pensador Joaquim Moncks, que presta um tributo à Liliana Cardoso, Patrona dos Festejos Farroupilhas de 2021, primeira negra a ter esta distinção na Semana Farroupilha. A escritora, declamadora e apresentadora é autora do recente livro “Matriz da cultura negra no gauchismo”, que será lançado na Feira do Livro de Camaquã, em novembro.

“Conheci Liliana Cardoso, prendada musa do gauchismo – ainda não teria dez anos – no bem apresentado bolichão chamado Pulperia, noturno palco artístico situado na Travessa do Carmo, ao lado da EPATUR, centro de Porto Alegre, a capital gaúcha. Estávamos no inverno de 1985, primavera da redemocratização.

Lili era uma criaturinha linda, como todas as crianças. Chamava a atenção os seus olhinhos vivazes, a sua pouco aparente inquietude, o seu embevecimento quanto à arte da palavra, prestando atenção em tudo à sua volta, quando sentávamos à mesa pra ver o que de melhor havia em arte gauchesca naquele final dos chamados anos de chumbo.

A Pulperia e os pulpedos sazonais em alguns bairros fora do centro da capital, vale dizer, entreveros de vertentes e raízes nativistas tinham esse dom: reuniam quem gostava de pensar e prosear sobre o futuro de la “patria gaúcha”, recitar, sacolejar os quartos, dizer versos crioulos, fazer música cantando as agruras do campesinato, a migração rural desordenada; vivia-se a discutir poemas de cantochão, letras de música com forte apelo e conteúdos libertários, que denunciavam a falta de trabalho e de oportunidade para os que de seu nada tinham, os guetos de miséria nas periferias, etc. E dá-le gaita, violão, canto, verso e arrasta-pé…

Foi neste clima que convivi com Liliana Cardoso, graciosa e faceira em seu impecável vestido de prenda gaúcha, que várias vezes vi chegar acompanhada de seu pai, o José Luiz Cardoso e Dona Dione, pais corujas e parceiros. Deu bonita essa guria, dizia o paciencioso Zé, meu parceiraço de ideais libertários e de credos de amor e humanidade, o pai que jamais teve dúvidas em apresentar a noite para a adolescente Lili, ao pé dos palcos da digna arte da palavra gauchesca, enquanto se formatavam sua personalidade, gostos e prioridades. Enfim, sua cabecinha de moçoila tracejava o futuro nos salões do pensamento a todo momento.

E se me corre nas veias do remissivo pensamento aquilo que falava Dona Dione: boa filha, inteligente e dedicada. Vai honrar a família! Pois bem, é àquela mocinha que dedico a minha sincera e humilde verve, como depoente saudoso das vívidas décadas de 80/90 do séc. 20, agradecendo o amor que Liliana Cardoso tem oferecido a todos que tiveram ou têm, hoje, a oportunidade de observar a obra, a magnitude de criação, o seu poder de palavra, o seu oportuno “empoderamento” como expressão sempre jovem da mulher voltada aos meandros da arte, ciosa de sua digníssima etnia, para a qual “vidas negras importam”, enfim e ao cabo, um exímio exemplar da feminina negritude gaúcha neste início do séc. 21.

Por fim, sou um penhorado agraciado, por carinho e convite, um dos seus padrinhos do consórcio matrimonial com Solon Duarte, rica figura de amigo. Liliana Cardoso, a sempre Lili, prenda prendada e fortaleza, é a dedicada mãe de Andrés Montemuro, já moço, e de Pérola, a caçulinha. 

Dia desses, talvez, Pérola vá querer usar o seu vestido de prenda, traje preferencial e de honra em todo o território do Rio Grande de São Pedro, homenagem àqueles tutores cujos atos de ancestralidade nos permitem falar de respeito e amor “a la patria gaucha”, o espírito ancestral indormido que nos permitiu chegar até aqui. Como o Rio Grande é um rico berço de culturas, haverá, decerto, algum padrinho para documentar as raízes de Pérola Cardoso Duarte, quando chegar sua hora e vez. Porque berço ela tem e, por certo, terá futuro de comprometimento.”

(*) Joaquim Moncks – Conselheiro Honorário do Movimento Tradicionalista Gaúcho 


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