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O adeus de Clérinho à empresa São João: “Me sinto realizado. Acho que cumpri com minha missão!”

"Fiz meu trabalho sempre com dedicação e carinho. Eu encerro esse trabalho de cabeça erguida”, afirmou Luis Clério Duarte, o querido Clérinho, à reportagem do Clic Camaquã; assista


Por Redação Clic Camaquã Publicado 02/08/2022
 Tempo de leitura estimado: 00:00
Clérinho se emociona ao falar do encerramento das atividades da empresa São João
Clérinho se emociona ao falar do encerramento das atividades da empresa São João. Foto: YouTube

Sexta-feira, 29 de julho de 2022, 19:24. Após 55 anos de serviços prestados à comunidade de Camaquã, deixava a garagem da empresa de ônibus São João sua última linha. O motorista precisava ser Luis Clério Duarte, o conhecido Clerinho, popular e querido em toda comunidade por suas décadas de cuidado e atenção no volante dos coletivos da São João.

A última viagem de Clérinho na empresa São João foi acompanhada pela reportagem do Clic Camaquã, representada pelo jornalista Eduardo Costa e pelo comunicador Celiomar Garcia.

Além de registrar o trajeto, eles conversaram com os passageiros e colaboradores da empresa, que demonstraram satisfação e emoção ao descrever a trajetória de sucesso da empresa, que completaria 56 anos no final de 2022.

Assista a última viagem:

A história da empresa

Luis Clério Duarte, o querido Clérinho, foi o protagonista da segunda parte da reportagem e contou a história da empresa, fundada em 12 de dezembro de 1966. A primeira viagem foi realizada em um Kombi, que saiu da BR-116, do extinto Armazém Cristo Redentor. Clérinho foi o cobrador, enquanto seu primo era o motorista.

“Dentro de 30 dias, tirei minha habilitação e iniciei no volante, onde estou até hoje. Pra gente que trabalhou tantos anos assim, não é o dinheiro que vai trazer a alegria e a felicidade. Durante esses anos eu fiquei muito rico, mas de amizade. Por onde eu ando, as pessoas me gritam ‘ô Tio Clérinho, ô seu Clérinho’, demonstrando aquela amizade, e pagando aquele carinho que eu tive com todos por aqui”.

Clérinho aproveitou o espaço para agredecer aos incontáveis colaboradores e passageiros que estiveram com ele ao longo dos anos. Ele agredeceu a todos que o auxiliaram a ter o sustento que garantiu a formação dos filhos: uma dentista e um administrador. Agradeceu também a esposa e todos os amigos: “Tive o prazer de nunca deixar uma pessoa sem dinheiro na rua. Muitas pessoas que não tinham condições de pagar a passagem para os filhos irem pra escola, filhos de gente pobre, eu levava de graça e trazia, para que eles estudássem”.

Ele disse que a partir de agora, vai se dedicar a um hobby: a restauração de carros antigos. Clério montou uma oficina e a partir de agora, irá se dedicar a essa nova atividade: “Toda pessoa tem que se deitar de noite e se preocupar com o que vai fazer no dia seguinte. Se não tiver isso, a vida perde a graça. E eu ainda tenho muita força pra seguir trabalhando com as coisas que sempre fiz, e que gosto de fazer”.

“Eu encerro meu trabalho de cabeça erguida, sem tristeza, com muita alegria. […] O primeiro dia de trabalho eu me lembro como se fosse hoje, começando de cobrador. Fechando 56 anos de trabalho, eu me sinto realizado, acho que cumpri com minha missão. Fiz meu trabalho sempre com dedicação e carinho. Eu encerro esse trabalho de cabeça erguida”

Assista a reportagem completa:

Em relação à reportagem e às homenagens, Clérinho agradeceu a presença da reportagem do Clic Camaquã:

“Quero agredecer aos amigos pela reportagem. As coisas bonitas e as melhores homenagens são as que são feitas em vida. Não adianta levar vela e flores para quem já morreu. Façam em vida, como vocês estão fazendo para mim, para nós. Por hoje, meu muito obrigado!”

Décadas de dedicação

Na primeira parte da reportagem, Celiomar Garcia conversou com o motorista Simoldain Linde Ulguim, o Cachorrão, e com o cobrador João Paulo Freitas, o Rosinha, já conhecidos por seus apelidos e queridos pelos usuários que utilizam o serviço diariamente.

“Já perdi muito sono por causa do ônibus e desta situação. Nós sempre soubemos das dificuldades, quando estava bom, quando estava ruim. Eu sempre fui parceiro do Clérinho e do Claiton, e falei pra eles que iria ficar até fechar a última porta”, relatou o motorista.

“Agora tá caindo a ficha mesmo. Vou ir para casa e amanhã não vou ter pra onde ir. Amanhã vou poder dormir até 8h, coisa que eu nunca fiz. Mas, eu sabia que um dia iria acontecer. Eu sempre gostei disso aqui, sempre fui apaixonado por ônibus. Nunca pensei em fazer outra coisa na vida”, relatou Cachorrão, emocionado.

Cachorrão conta que começou a trabalhar no transporte coletivo em 1980, ainda jovem, e permaneceu no ramo sua vida inteira. Começou como cobrador, aprendeu a dirigir e foi aproveitando as oportunidades para se tornar motorista.

“Posso dizer que tenho muito orgulho, tenho dois filhos maravilhosos que aproveitaram meu esforço e nunca botaram fora meu suor, sempre fizeram valer o dinheiro que ganhei com meu trabalho. Só tenho a agradeceu a Deus. Se ele me chamasse hoje, partiria feliz, com dever cumprido”

Em um breve relato, igualmente emocionado, o última entrevistado foi João Paulo Freitas, o popular Rosinha, que falou sobre sua trajetória no ramo:

“É uma vida toda que passei nos ônibus. A gente se emociona, é difícil, mas é vida que segue. Vamos a luta. São 26 anos de empresa. Não tenho medo de ficar desempregado, mas é uma tristeza, sair após uma vida aqui dentro. Pela amizade que tenho aqui, sei que vou ter portas abertas lá fora”, relatou o cobrador.


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