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Dia do Biólogo - 3 de setembro: A preservação do Lobo-guará passa pelos cuidados deste profissional

Conservação do lobo-guará beneficia produtores rurais, dizem biólogos; animal é o homenageado na cédula de R$ 200
02/09/2020 - 17h:01min - Fonte: Com informações de Brasil Escola, Agência Brasil e Mundo Educação

O dia do biólogo, profissional que atua na área da Biologia, é comemorado em 3 de setembro. Essa data foi escolhida porque a profissão foi regulamentada em 3 de setembro de 1979, dia em que também foi criado o Conselho Federal de Biologia (CFBio) e ficou estabelecido o Dia Nacional do Biólogo.

O profissional é de suma importância para a preservação das espécies da fauna e da flora brasileira e atualmente, tem atuação direta na proteção do lobo-guará, animal que estampa a nova nota de R$200.

O biólogo, como o próprio nome indica, atua na área de Biologia, ciência responsável pelo estudo de todas as formas de vida existentes em nosso planeta. Essa ciência caracteriza-se pelo estudo do funcionamento dos organismos, como eles se originaram, sua evolução e ecologia.

Para exercer a profissão de biólogo, o profissional deve ser bacharel ou licenciado no curso de História Natural ou então no curso de Ciências Biológicas ou, ainda, em Licenciatura em Ciências com habilitação em Biologia.

 

O que faz um biólogo?

A área de atuação do biólogo é bastante ampla e divide-se em três campos principais: Meio Ambiente e Biodiversidade, Saúde, Biotecnologia e Produção. 

Dentro dessas áreas, os biólogos podem trabalhar, por exemplo, com bioética, bioinformática, controle de pragas, gestão de coleções biológicas, ecoturismo, educação ambiental, gestão de recursos hídricos, mudanças climáticas, perícia forense, saneamento ambiental, aconselhamento genético, análises citogenéticas, análises clínicas, testes em animais, reprodução humana assistida, terapia gênica, desenvolvimento de organismos geneticamente modificados, entre vários outros campos.

Ser biólogo é, portanto, muito mais que trabalhar com animais e plantas. Esse profissional estuda todos os aspectos relacionados com a vida, podendo atuar em laboratórios, zoológicos, parques florestais, áreas de preservação, áreas mais burocráticas, entre muitas outras. Vale destacar, no entanto, que, independentemente da área escolhida, o biólogo deve respeitar a vida em todos os seus níveis.

 

O símbolo da Biologia

O símbolo do biólogo, que foi publicado pela resolução CFBio, nº 187/2009, e registrado no INPI, em 07 de maio de 2009, mostra diversos pontos que envolvem a rotina desse profissional. Nesse símbolo, podemos observar quatro elementos básicos: o DNA, o espermatozoide, as folhas e a espiral.


Analise os elementos básicos do símbolo do biólogo: DNA, espermatozoide, folhas e espiral

DNA representado no símbolo relaciona-se com a vida, uma vez que essa é a molécula que possui as informações necessárias para determinar as características dos seres vivos. O espermatozoide, que está fecundando um óvulo, indica o surgimento de uma nova vida. As folhas, por sua vez, representam os organismos fotossintetizantes que são essenciais para a nossa sobrevivência, além de retratarem a importância da natureza. Por fim, temos a espiral, que faz relação com a evolução e o progresso.

A cor do biólogo é azul e a pedra é a água-marinha em qualquer uma de suas tonalidades.

 

A importância na preservação do Lobo-Guará

Em alta na visibilidade pública por estampar a nova nota de R$ 200, o lobo-guará, segundo os biólogos, precisa ser reconhecido também, cada vez mais, pelos benefícios que pode trazer para o setor produtivo rural. Esse é um valor ainda pouco contabilizado, conforme os especialistas avaliam. Tanto que é um animal que está na categoria vulnerável em relação à elevada ameaça de extinção. Isso ocorre principalmente pela perda do habitat primordial, o Cerrado, com a ampliação das áreas urbanas e também das plantações.

Estudiosos argumentam que não pode haver dois lados nas discussões sobre conservação da natureza: um embate entre meio ambiente e economia. Projetos colocados em prática com o lobo-guará mostram que é possível a convivência adequada entre preservação e agroindústria. Conscientização e ações equilibradas fazem bem para as plantações, para o animal a para os negócios.

"O que a gente precisa e está buscando nos projetos é construir as pontes entre os diversos interesses, o econômico e o de conservação. É necessário mostrar para os setores de produção que não existem dois lados. Existe um lado só. Se eles trabalharem de forma sustentável na produção, eles vão ganhar e a fauna também", explica o biólogo Rogério Cunha de Paula. 

Clique aqui e confira como ficou a nova cédula de R$200.

Ele pesquisa o lobo-guará há quase 25 anos e, por isso, um dos maiores conhecedores do animal na América Latina. Cunha atua como analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), no Centro Nacional de Pesquisas para Conservação dos Predadores Naturais (Cenap).

Para ele, o desafio presente é fazer com que o setor econômico entenda a necessidade e seja parceiro. Um fato é que a velocidade da degradação do habitat é bem mais rápida do que a de recomposição da espécie. "Com o tempo, ele vai desaparecer de vários lugares. Quando a gente fala da descaracterização do Cerrado, ambiente principal do animal, temos que é uma realidade muito preocupante. Mas não adianta falar apenas que o animal é importante e por isso não é possível converter áreas do bioma em plantações, sendo que sabemos que o forte do nosso PIB [Produto Interno Bruto] é a exportação de produtos agrícolas."

Entre os projetos de conservação, está o Lobos da Canastra, que existe desde 2004, no Parque Nacional da Serra na Canastra, em Minas Gerais. Segundo Rogério Cunha, trata-se do espaço de Cerrado com a maior concentração de animais na América Latina (aproximadamente 200). Ele explica que o local é apropriado para a conservação em vista das características nativas do lugar e por ser ocupada por pequenos produtores rurais, em diferentes atividades. "Quanto mais diversificado, melhor para o animal". destaca.

O desafio é o de conscientizar esses empreendedores de que o lobo (que é onívoro, alimenta-se de tudo) poderia comer pequenos animais, como ratos e cobras, por exemplo, que causam doenças em outros animais das propriedades. O Lobos da Canastra envolveu dez instituições lideradas pelo Instituto Pró-Carnívoros. No contexto da pesquisa com o lobo-guará, o projeto cuida de informar a comunidade e também motivar a discussão dos problemas e busca por soluções.

Lobo 1 - Exames do lobo no habitat 
Foto: Fernanda Azevedo / Direitos reservados

Estudo dos hábitos dos animais aprimora estrutura para a preservação -  Fernanda Azevedo / Direitos reservados 

"Fazer parcerias é fundamental. Na Serra da Canastra, uma das maiores ameaças ao lobo era a caça. Isso porque os animais comiam as aves dos produtores e isso levava a serem caçados. A gente conseguiu acabar com essa prática mostrando para as pessoas que as galinhas poderiam ser presas no galinheiro. Mostramos para as pessoas que os lobos poderiam ser aliados porque comiam os ratos e as cobras. Convencemos os produtores, mas era necessário proteger as galinhas. Eles viram que isso poderia dar lucro. Incluindo atrativo turístico."

Ele defende ainda a "conservação pelo encantamento", ao associar os produtores aos animais. "É necessário olhar a vida que há em volta. Seja na Canastra ou em São Paulo, na região de São José do Rio Pardo, em área de plantação de cana, ou na Bahia, em região de soja e turística [próximo à cidade de Luis Eduardo Magalhães]. Os produtores rurais têm grande responsabilidade porque sabem o que pode ser feito na terra." Para Rogério Cunha, o cidadão comum deve ser informado e, com o tempo, a sociedade passou a ser mais conscientizada. "Há algum tempo, aparecia o lobo e os donos da terra davam tiro. Isso reitera a importância da visibilidade da nota de R$ 200". O biólogo criou, em 2012, ainda o selo Amigo do Lobo, para empresários que trabalhavam em prol da preservação do animal.

Foto 12 - Galinheiro
Foto: Foto: Adriano Gambarini / Direitos reservados

Projetos como "Lobos da Canastra" convenceram produtores que é necessário proteger galinhas -  Adriano Gambarini

Por GPS

O presidente da Instituição Pró-Carnívoros, o biólogo Ricardo Pires Boulhosa, concorda que é necessário, sobretudo, estabelecer conexões com os produtores rurais para informar adequadamente sobre a importância do lobo-guará. A organização não governamental atua no campo da pesquisa para conhecer mais sobre o animal desde 1996, com trabalhos pioneiros com o lobo, para ajudar a proteger o animal. Entre os argumentos utilizados é que o bicho, considerado resiliente, resistente e não agressivo, demonstra ser aliado para a produção. Uma das características mais conhecidas é o seu potencial de semeador.

"Como é onívoro, come de tudo, incluindo frutas, e anda grande distâncias, acaba defecando e contribuindo com a natureza ao espalhar as sementes por quilômetros. Dentro da sua dieta, a lobeira [fruta semelhante a um tomate] está entre as preferidas do lobo". Ao todo, calcula-se que 73% dos lobos estejam no Brasil, principalmente no Cerrado. Pampas e Pantanal são outros biomas onde a espécie está mais ameaçada. "Já tivemos registros também na Mata Atlântica e até Amazônia descaracterizadas.”

Instituto Pró-Carnívoros,lobo-guará

Projetos de conservação da espécie ratificam monitoramento no habitat  -  Ricardo Boulhosa/IPC/AES/CENAP

O especialista explica que um dos projetos está em andamento no interior de São Paulo, nas proximidades da Bacia do Rio Pardo (SP), o Lobos do Pardo."O local que estamos trabalhando hoje não é de unidade de conservação. Trata-se de uma área de mancha de Cerrado que está sofrendo alterações. Estamos vendo como o animal utiliza o canavial para caçar e se proteger. É o primeiro trabalho que é realizado em uma região assim, totalmente transformada, e podemos comparar com os lobos em unidades de conservação."

O trabalho tem a parceria de uma empresa geradora de energia elétrica (AES Tietê) interessada em conhecer o comportamento do lobo na região de quatro reservatórios. "Precisamos gerar dados para compreender a realidade onde ele está. É importante manter essas manchas de Cerrado para proteger. Ao conhecer, podemos trabalhar com o produtor rural para uma ação mais sustentável. Podemos desenvolver técnicas que minimizem a pressão sobre o animal", afirma Ricardo Boulhosa. O biólogo acrescenta que há também uma atenção internacional sobre como os países cuidam do meio ambiente, e essa imagem é um ativo nas exportações.

Instituto Pró-Carnívoros,lobo-guará

Animal é onívoro e tem papel importante na natureza - Ricardo Boulhosa/IPC/AES/CENAP/Direitos reservados

O projeto mantém lobos monitorados por um colar que captura informações por 24 horas. As informações chegam via GPS para o instituto. Todas as movimentações são observadas para entender o uso do ambiente.

"Aqui nós temos uma plantação de cana em que há produção durante a madrugada. Estamos olhando se isso interfere na saúde do animal." A ideia é que, com essas informações, os proprietários sejam sensibilizados para que a colheita, por exemplo, seja mais gradual. As informações são utilizadas para colaborar com as políticas públicas e também educação ambiental das comunidades. Identificamos na área pelo menos 22 lobos".

Persuasão

Os especialistas consideram que a escolha do animal para ilustrar a nota de R$ 200 é positiva para promover mais discussões e visibilidade. Para o professor de ecologia Eduardo Bessa, da Universidade de Brasília (UnB), esse simbolismo pode promover mais conhecimento. Até porque o lobo-guará tem aparecido com frequência em áreas urbanas e também é vítima de atropelamentos com a expansão da malha rodoviária.

Lobo 3 - Lobo atropelado em estrada 
Foto: Rogério Cunha / Direitos reservados

Atropelamento é uma ameaça permanente à espécie com a expansão das estradas - Rogério Cunha / Direitos reservados 

"Temos uma estimativa de 17 mil indivíduos. Mesmo estando a maior parte no Brasil, há também na Argentina, Paraguai e Uruguai. É um bicho tímido que come de tudo, inclusive cupim. Mas esse nome de lobo não tem relação com animais que levam esse nome em outros países. Ele é tranquilo. Mas os atropelamentos e as caças ainda ameaçam muito a sua existência principalmente nos Pampas e no Cerrado."

O professor defende que a demarcação de áreas é fundamental para formar corredores de forma que ele possa migrar de uma região para outra. "Fiscalizar as reservas legais é muito importante e conscientizar os fazendeiros para manter os espaços de passagem", afirma o professor.

Lobo 6 -  Aula de educação ambiental (Lar Maria Imaculada)
Foto: Adriano Gambarini / Direitos reservados

Para Pesquisador Rogério Cunha de Paula é fundamental trabalho de educação ambiental para crianças -  Adriano Gambarini

A escola é espaço fundamental para aumentar o conhecimento sobre a biodiversidade do Cerrado. O professor de biologia Saulo Mandel, de ensino secundarista, em Brasília, testemunha que alunos comentam mais sobre animais de fora do país do que da própria região.

"Por isso é positivo que a nota tenha a imagem de um animal brasileiro. O caminho de invasão de habitat e os conflitos entre homem e meio ambiente são as causas dessas perdas. No Cerrado, temos monoculturas e é necessário que os problemas sejam sanados. Entendo que essa geração atual pode ser influenciada para se conscientizar." Entre os estudantes, o terreno é fértil desde que sejam provocados. "Mas podemos insistir mais nesse tema. O nosso papel de professor é muito desafiador também por causa disso. E devemos trazer situações do cotidiano para sala de aula."

O biólogo Mateus Sousa, do Zoológico de Brasília, avalia que os seis lobos-guará que estão no local estão entre os preferidos entre os visitantes. "São animais que foram resgatados de situações como queimadas ou que estavam sob risco. Além disso, o zoológico faz o papel de backup porque, se faltar na natureza, eles podem ajudar a repovoar alguma região. Sem dúvida, aqui no Centro-Oeste, os casos de atropelamentos são ameaças à espécie. Cada vez que alguém visita nossa reserva fica mais consciente do que ocorre." O biólogo explica que, nas visitas, é enfatizado o quanto o lobo é importante na cadeia alimentar e na proteção das plantações.

Imagem do lobo-guará no Zoológico de Brasília

No Zoológico de Brasília, em pleno Cerrado, animais são protegidos após resgate - Marcella Lasneaux / Zoo de Brasília

Cuidar do lobo gera benefícios para as plantações e estimula também o ecoturismo. Um projeto coordenado pela ONG Onçafari, há nove anos, atua pela sensibilização e conservação também dessa espécie. "A atividade faz com que empregos sejam gerados por causa da proteção ao lobo. As pessoas passam a entender que a preservação faz muito bem para todos os lados da história. O que eu gosto do ecoturismo é que as pessoas entendem que vale muito para a economia da região. A família descobre que pode ter emprego mais qualificado. Temos histórias em que a renda aumentou muito". afirma o presidente da entidade, Mário Haberfeld, ex-piloto de automobilismo e apaixonado pela proteção da vida selvagem.

O projeto monitora atualmente dois lobos com colares: Nhorinhá e Diadorim, ambos personagens de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e fornece informações para educação ambiental e produtos culturais, conscientizando de crianças a produtores rurais. A iniciativa bem-sucedida de ecoturismo ocorre em uma parceria com uma pousada (Trijunção), em área de Cerrado na Bahia, próximo à divisa com Goiás e Minas Gerais.

"Nossos guias são zootecnistas, ornitólogos, engenheiros florestais, agrônomos, veterinários e são eles que contam as histórias do Cerrado, de sua flora e fauna. O lobo-guará é um dos personagens importantes da vida animal no Cerrado, a atividade de avistamento é feita com os guias do Projeto Onçafari que está estudando conosco o comportamento desse animal, importante e que precisa ser conservado no seu habitat", afirma a gerente da pousada, Jane Assis.

Para os produtores rurais ou para as crianças de uma comunidade, o desafio é espalhar as sementes de uma lição de biologia simples: esse lobo não é nada mau.

 

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