Variedades

O que faz do Rio Grande do Sul o 'paraíso' das borboletas no Brasil

Levantamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul surpreendeu pela descoberta de um enorme número de espécies de borboletas na região
07/12/2019 - 14h:51min - Fonte: BBC

Há 40 anos, a bióloga Helena Piccoli Romanowski, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), se dedica a estudar as borboletas do Sul do Brasil.

Começou em 1979, ainda estudante, e a partir de 1991, como pesquisadora e professora de sua instituição. Seu trabalho durante este tempo todo - que ainda continua - alargou o conhecimento que se tinha da biologia e ecologia desses insetos alados e coloridos.

Contribuiu para dobrar o número de espécies registradas no pampa (que eram conhecidas pela ciência, mas não se sabia que viviam na região), passando de 400 para 800, que é mais ou menos o mesmo da América do Norte e mais do que toda a Europa, que tem cerca de 500. Estima-se que existam ainda outras 200.

"O Laboratório de Ecologia de Insetos, da UFRGS, do qual sou chefe, vem realizando amplo levantamento da biodiversidade de borboletas do Sul da Mata Atlântica e do Pampa desde 1993."

"Integrando trabalho de campo, atividades de laboratório e simulações matemáticas, nosso grupo de pesquisa explora informações ecológicas provenientes dos padrões de biodiversidade para conectar a história natural e a macroecologia delas."

As espécies são inventariadas em diferentes ambientes destes biomas do Brasil meridional, dando prioridade a unidades de Conservação e áreas com ausência de informação.

As borboletas são avaliadas por área, tipo de habitat e variáveis ambientais. "Composição, riqueza, estrutura, dinâmica e - mais recentemente - também genética das populações e comunidades delas são analisadas comparativamente", explica Helena.

"O objetivo é verificar padrões de ocorrência e distribuição, interações entre espécies, associações com as diferentes formações de vegetação nativa, ecorregiões de origem, status de conservação, influência de variáveis ambientais (altitude, clima, interferência humana) e inferir processos e mecanismos geradores de diversidade."

Os resultados do levantamento surpreenderam pelo número de espécies existente na região.

"De uma maneira geral, o número de espécies diminui à medida que a latitude aumenta e clima se torna mais frio. Mas não foi o que descobrimos. Comparativamente, para o tamanho da área considerada, Estado é uma área muito rica."

Segundo a pesquisadora, existem no mundo cerca de 120 mil espécies de lepidópteros, dos quais cerca de 18 mil são borboletas. O restante é de mariposas.

As faunas de borboletas variam muito entre os continentes e os hemisférios em riqueza (número de espécies) e composição (quais espécies e a proporção dos grupos delas que estão presentes). A região neotropical (América do Sul e Caribe) é a mais rica do mundo, com cerca de 7,5 mil a 8 mil espécies.

 
Borboleta Euryades choretrus — Foto: Ana Paula Carvalho via BBC

Borboleta Euryades choretrus — Foto: Ana Paula Carvalho via BBC

A Paleártica (Eurásia e norte da África) contabiliza algo entre 1,8 mil a 2 mil, a Australiana ou Papuana (Austrália, Nova Zelândia, Tasmânia, Nova Guiné e ilhas ao redor), mil a 1,2 mil, e a Neártica (América do Norte desde o norte do México), de 700 a 800.

"A soma é maior do que 19 mil, porque várias delas são generalistas e ocorrem em mais de uma região", explica.

De acordo com ela, Colômbia, Peru, Equador e Brasil disputam o título de país com mais espécies de borboletas no mundo, com um total entre 3,5 mil e 4 mil.

No Brasil, provavelmente, a Mata Atlântica, com toda sua extensão do Nordeste ao Sul, ao longo da costa brasileira, e interiorizando-se, principalmente no Sudeste e Sul, até as fronteiras com Bolívia, Paraguai e Argentina, é o bioma com mais espécies de borboletas, com cerca 2.750 espécies.

"Mas também é o mais estudado", diz Helena. "Foi o primeiro a ser colonizado, além de abrigar a maioria e os principais centros de pesquisa e o maior número de pesquisadores. A fauna dos demais biomas só começou a receber mais atenção recentemente. É por isso que o número de espécies registradas começa a crescer."

Helena é uma apaixonada por esses insetos, que são importantes agentes polinizadores.

"São organismos adoráveis para se trabalhar", diz. "Cada espécie possui uma história de vida única, que começa com um ovo e passa pela lagarta, que precisa completar a metamorfose, durante a fase de pupa, para se tornar uma borboleta."

O trabalho de campo de Helena e sua equipe é feito em áreas naturais do sul do Brasil, em geral, unidades de conservação e parques como Aparados da Serra, Taim, Itapuã, Ibirapuitã, Espinilho e pelo menos uma centena de outras regiões no Rio Grande do Sul, mas também no Pantanal, Centro-Oeste, Amazônia, Uruguai e Argentina.

A pesquisadora conta que, durante as pesquisas, ela e seus colegas e alunos de mestrado e doutorado ouvem muitas perguntas sobre as borboletas.

Entre as mais comuns estão quanto tempo vivem (em geral, referem-se ao adulto, que pode viver de alguns dias, principalmente espécies de regiões temperadas a - agora se sabe - muitos meses, como algumas borboletas tropicais e subtropicais), e se o pozinho (escamas) das asas pode cegar.

"A outra resposta é, definitivamente, não. Pode, como qualquer pó, causar irritação se entrar nos olhos, o que é improvável, mas não deixa ninguém cego."

Os resultados do trabalho do grupo de Helena vão muito além, é claro, das respostas a essas perguntas simples.

"Um dos principais resultados é o conhecimento de quais são as espécies de borboletas que ocorrem no sul do Brasil", diz a pesquisadora.

"A fauna do hemisfério Sul do planeta é muito pouco conhecida e principalmente a das partes de clima não tropical e de regiões, digamos assim, menos 'exóticas' (quero dizer, aquelas que não são florestas tropicais ou não remetem à ideia de áreas 'selvagens'). O hemisfério norte e os países de tradição anglo-saxônica, em especial, já vêm sendo estudado há séculos e contam com uma tradição científica bem estabelecida."

Por isso, diz ela, até muito recentemente, a maior parte das teorias e conhecimento biológico de que se dispunha sobre borboletas derivava de estudos feitos em áreas temperadas da Europa e América do Norte.

Ou seja, não apenas as espécies de regiões tropicais e do hemisfério sul não eram conhecidas, como também imaginava-se que as teorias gerais que se aplicavam para as do Norte poderiam simplesmente ser usadas para os ecossistemas de outras partes do mundo.

Além desses resultados mais amplos, o trabalho também teve descobertas mais específicas. Uma delas é sobre a borboleta de inverno (Taygetis yphtima), feita durante o mestrado de Vanessa Pedrotti, que realizou suas pesquisas numa propriedade particular em São Francisco de Paula, na serra gaúcha.

"É uma espécie que vive em interior de mata bem conservada, típica de regiões de floresta de araucária na Mata Atlântica até o Sul do Brasil, mas também no Paraguai e na Argentina", explica Helena, que foi orientadora do trabalho.

Segundo ela, os adultos começam a emergir das pupas de forma sincronizada no início do verão e vivem ao longo de todo o ano, o que é muito incomum. "Registramos provavelmente a maior longevidade conhecida para borboletas nos neotrópicos: 247 dias", conta.

"Também, ao contrário do usual e esperado para espécies em regiões subtropicais, ela tem grande abundância no inverno. Os ambientes que habita costumam apresentar temperaturas baixíssimas em julho e agosto, às vezes até abaixo de zero.

O declínio de populações da borboleta Euryades choretrus - grande, bonita, vistosa e de fácil identificação por leigos - foi outra descoberta do grupo.

Ela é endêmica - e depende para existir - dos campos nativos do sul e costumava ser muito abundante. Quando lagarta, alimenta-se de uma planta rasteira que só ocorre em áreas bem conservadas, a Aristolocchia sessilifolia.

"Por este motivo, foi batizada, por meio de uma campanha nas redes sociais e eventos de extensão, como 'campoleta' e decidimos torná-la espécie-bandeira para conservação dos campos nativos", explica Helena.

Atualmente, tem sido extremamente difícil encontrá-la, devido à destruição crescente de seu habitat.

"Temos estudado a espécie há mais de 5 anos e é notável o declínio de suas populações e de áreas adequadas para a ela", lamenta a pesquisadora.

"Recentemente, durante dois anos, realizamos uma série de expedições, por toda sua extensão de ocorrência potencial, abrangendo inúmeras regiões dos campos sulinos, do Paraná, passando por Santa Catarina, varrendo o pampa gaúcho, e incluindo inclusive áreas do Uruguai e Argentina.

Em 77,5% das áreas previamente selecionadas por modelagem matemática e imagens de satélite, onde deveria haver hábitat adequado para a ocorrência da campoleta, não havia mais campos nativos. Onde encontramos áreas adequadas, apenas em 14% dos casos a espécie foi localizada."

Em vários dos poucos locais em que os pesquisadores encontraram campos em bom estado de conservação, não havia inseto algum, provavelmente devido ao uso indiscriminado de agrotóxicos nas monoculturas, em geral de soja, que circundavam as áreas estudadas.

"A campoleta é considerada vulnerável à extinção nas listas de espécies ameaçadas dos Estados do sul do Brasil, mas, com base neste nosso estudo, aconselhamos que seu status seja mudado para ameaçada na lista estadual e incluída na lista nacional."

De acordo com ela, como era uma borboleta comum e robusta, a campoleta é um bom indicador das condições de conservação do campo.

"Muitas outras espécies devem estar em situação preocupante como a dela", lamenta.

"Apenas, por não serem grandes ou vistosas ou talvez não ter sido tão abundantes anteriormente, não são tão evidentes para nós.

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