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Catullo Fernandes - Arte, Cultura e História
Por Catullo Fernandes - Arte, Cultura e História
Pesquisador e poeta

O tio farroupilha e o sobrinho maragato: os dois Nettos

Publicado: 10/06/2021 às 15:20 | Fonte: Catullo Fernandes


Aproveitando o ensejo dos 25 anos da restauração do Forte Zeca Netto destacamos a figura ilustre, que empresta o nome aquele espaço histórico tombado como patrimônio histórico estadual. No último dia 22 de maio registrou-se os 73 anos da morte de José Antônio Mattos Netto, o condor dos Tapes, e no próximo dia 24 de junho registra-se os 167 anos de seu nascimento. O Gal. Zeca Netto foi o primeiro prefeito de Camaquã, nomeado pelo interventor do RS, Flores da Cunha, com o aval do presidente Getúlio Vargas, em 1930. O advento das nomeações prosseguiu até 1948, quando os prefeitos passam a ser eleitos através do voto, justamente o ano da morte do último caudilho.

Ao longo dos anos muitos camaquenses têm questionado qual a ligação entre os generais Antônio de Sousa Netto e José Antônio Netto - Zeca Netto. A conexão entre ambos não está apenas na semelhança dos nomes. Embora vivendo em épocas diferentes, os dois caudilhos gaúchos são herdeiros das primitivas sesmarias que deram origem ao Rincão dos Nettos, no município de Bagé. Hábeis cavaleiros e vaqueanos por excelência, os feitos heroicos de um confundem-se com os atos de bravura de outro.

Contudo, para desmistificar qualquer controvérsia, basta verificar a Genealogia dos Nettos, publicada na obra “Subsídios à História de Camaquã - Os 80 anos da Revolução de 1923”, de João Máximo Lopes, pesquisador que conhece como poucos a trajetória de Zeca Netto.

Já Antônio de Sousa Netto era irmão de Florisbelo de Sousa Netto, pai de José Antônio Netto. Portanto, o general farroupilha é tio de Zeca Netto. Alguma confusão que possa ter existido deve-se a semelhança de nomes, já que o próprio Zeca Netto pôs o nome do pai em um dos seus filhos do primeiro casamento, o primogênito Florisbelo de Oliveira Netto, que por sua vez é pai do falecido prefeito José Cândido de Godoy Netto. Resumindo o Gal. Zeca Netto maragato é sobrinho do líder farroupilha Antônio de Sousa Netto, reverenciado no filme “Netto perde sua alma”, de Tabajara Ruas. 

Assim como o tio farroupilha, Zeca Netto, nasceu no Jaguarão-Chico, em Bagé. Ele veio ao mundo no dia 24 de junho de 1854, na estância dos pais, Florisbelo de Sousa Netto e Raphaela de Mattos Netto, portanto no lado brasileiro da fronteira. Em 1872, Zeca Netto aderiu ao positivismo passando a exercer importantes cargos públicos na condição de Chefe do Partido Republicano Camaquense. Na Revolução Federalista de 1893 defendeu a causa governista - os pica-paus - liderados pelo positivista Júlio de Castilhos.

Contudo em 1923, inconformado com as discriminações com a metade Sul e a falta de investimentos para as atividades pastoris, Netto rompe com Borges de Medeiros (PRR), e adere ao movimento maragato de lenços vermelhos, apoiando Assis Brasil para o governo do Estado, tornando-se um dos mais temidos comandantes das divisões revolucionárias. De suas ações bélicas, a mais marcante foi a Tomada de Pelotas, em 29 de outubro de 1923, onde com amplo apoio popular sitiou a cidade por seis horas. Ele aos 69 anos reeditava, assim, o feito de seu tio Gal. Antônio de Sousa Netto, que na Revolução Farroupilha, 87 anos antes, havia conquistado Pelotas, depois da emblemática vitória no combate de Seival, em 1836.

Zeca Netto foi um homem culto, falava três idiomas: francês, espanhol e inglês, vaqueano por natureza, militar experimentado e político respeitado pela comunidade, Zeca Netto era a síntese do gaúcho daquelas épocas de revoluções. De suas três uniões conhecidas foram gerados doze filhos, todos assistidos por um pai muito zeloso, independente do preconceito muito comum naquela época.

Quanto a supostos crimes atribuídos ao general e imputados a Manoel Joaquim Lucas de Jesus, o folclórico Manecão, que por ordem de Zeca Netto teria degolado inúmeros rivais, não existe nenhuma prova contundente. Vale ressaltar que a sangrenta revolução da degola ocorreu em 1893, quando Zeca Netto não integrava as hostes maragatas. Já na Revolução de 1923, quando ele adere aos revolucionários, este tipo de barbárie não se verificava mais salvo casos isolados, onde não há registro de que o general comandasse esta prática abominável.

O primeiro prefeito de Camaquã morreu aos 94 anos de idade em 22 de maio de 1948, dias depois de ser entrevistado pelo jovem jornalista Barbosa Lessa. Anos mais tarde, Lessa publicou a crônica “Minha entrevista com o herói” onde lamentou, que pelo fato de sua juventude, não aproveitou para conhecer com mais profundidade o ser humano Zeca Netto. Por tradição oral sabe-se que seu velório foi acompanhado por um número restrito de pessoas. Com idade avançada e já não gozando o prestígio de seus tempos de glória poucos acompanharam o cortejo fúnebre, ainda mais que naquela época as divergências políticas locais eram muito acirradas.

Vale lembrar que o intrépido general trocou o lenço branco chimango pelo lenço vermelho maragato, o que era imperdoável mesmo em se tratando de um líder tão conhecido. “Jesus, Maria, José, ajudai-me...” teriam sido suas últimas palavras, em seu leito de morte na Estância da Chácara, popularmente conhecida como Forte Zeca Netto. Embora sua morte tenha tido repercussão inclusive no Senado Federal, morria sem alarde o primeiro prefeito do município e uma das figuras mais distintas da história regional, e que por desígnios do destino nascera em uma noite de São João, Padroeiro de Camaquã, sua terra adotiva.


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