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Julho é o mês que marca a histórica travessia do Seival - de Camaquã à Laguna

10/07/2020 - 09h:07min
Catullo Fernandes - Arte, Cultura e História

Corria o ano de 1838, o terceiro do decênio farrapo (1835/1845). Vindo do Uruguai onde esteve preso e acabara de ser libertado, e dirigindo-se a Piratini - primeira capital farroupilha - o marinheiro italiano Giuseppe Garibaldi (Nice - 4 de julho de 1807 / Caprera - 2 de junho de 1882) se encontra com o ministro Domingos José de Almeida, um importante líder farroupilha, que comandava os custos operacionais da revolução, lembrando que nesta época o general Bento Gonçalves encontrava-se preso. Garibaldi recebe a incumbência de montar um estaleiro na foz do rio Camaquã, localidade da Charqueada, que existe até hoje, e encontra-se no atual distrito da Pacheca.

O condottiere, que era membro da maçonaria carbonária, aqui aportou aos 31 anos de idade, no final de junho ou início de julho, conforme assinalam a maioria dos historiadores. Em 1 de setembro de 1838, Garibaldi foi nomeado capitão-tenente, comandante da marinha farroupilha.  Às margens do rio Camaquã, na Estância da Barra, propriedade de Antônia Joaquina da Silva, irmã do Gal. Bento Gonçalves (local que inspirou a ficção “A casa das Sete Mulheres”), Garibaldi erigiu o estaleiro da República Rio-Grandense.

A outra residência próxima era a Estância do Brejo, propriedade da filha de Antônia - Anna Ventura da Silva, esposa do juiz farroupilha Manoel da Silva Pacheco, que mais tarde passaria a ser conhecida como Dona Pacheca, daí o nome do distrito. Foi neste ambiente de hospitalidade, nas casas de mãe e filha, que o condottiere italiano conheceu Manoela, prima de Bento Gonçalves. Enamorados à primeira vista o romance não prosperou pois a família não aceitou o namoro, tendo inclusive criado uma álibi de que a jovem donzela de olhos azuis estava prometida para Joaquim, filho do Gal. Bento Gonçalves. Manoela jamais se casou e faleceu em Pelotas, em 1903. A manchete nos jornais da época trazia o singelo epitáfio - Morre a noiva de Garibaldi!

 

A epopeia dos lanchões na Revolução Farroupilha

 

Foi ali naquele lugar seguro e acolhedor que o corsário italiano comandou a construção das duas principais embarcações da frota farrapa - o Seival, um lanchão com 12 metros de comprimento e 25 toneladas, e o Farroupilha de 18 toneladas, ambos armados com quatro canhões de doze polegadas. O norte-americano John Griggs, apelidado de João Grande, que já estava no local, era responsável pelos trabalhos de carpintaria, e já havia construído dois barcos menores. O rio Camaquã com seu curso sinuoso foi um grande aliado dos farroupilhas.

Emjulho de 1839, há 181 anos, as duas pesadas embarcações - o Seival e o Farroupilha – percorreram a primeira etapa do percurso nas águas tranquilas da Lagoa dos Patos. Depois foram colocadas sobre duas enormes carretas puxadas por bois, e transportadas por terra ao longo de cerca de 100km, durante seis dias, entre o rio Capivari e a Lagoa do Tramandaí. E a partir daí os barcos ingressaram no mar singrando o Atlântico rumo à Santa Catarina. Esta ousada manobra militar proporcionou aos farrapos a conquista de Laguna e a fundação da efêmera República Juliana. Embora o naufrágio do Farroupilha, com a morte de diversos companheiros italianos e gaúchos, Garibaldi teve seu esforço amenizado. Ali Garibaldi encontrou Ana Maria de Jesus Ribeiro, hoje conhecida internacionalmente como Anita Garibaldi.

Antes da homérica travessia, em 17 de abril daquele mesmo ano, o temido Cel. Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, ataca o arsenal de Garibaldi na Estância da Barra, com uma centena de homens. Surpreendido e com apenas 13 combatentes, apesar da disparidade de forças o experiente marinheiro rechaça os caramurus. Ferido e humilhado, Moringue bate em retirada, amargando uma de suas raras derrotas. A vitória épica dos farrapos em terras camaquenses está registrada em monumento localizado na Charqueada, no distrito da Pacheca.

 

IMPORTANTE: Em 2019 registrou-se os 180 anos de um feito único no mundo - a epopeia náutica do Seival. O episódio é descrito na obra“Memórias de Garibaldi” publicada em Paris (1860), pelo famoso escritor francês Alexandre Dumas, autor do épico “Os três mosqueteiros”.Para marcar esta façanha protagonizada no cenário da Revolução Farroupilha, pelo condottiere italiano Giuseppe Garibaldi a partir do rio Camaquã, o produtor cultural Catullo Fernandes apresentou no Teatro do Sesc Camaquã e no Acampamento Farroupilha em Porto Alegre o espetáculo“Garibaldi - Romance e Revolução”, com o conjunto Camaquã Terra Farroupilha. No momento o professor Antônio Carlos Rodrigues, dirigente da Associação Socioambiental Amigos do Seival - ASAS, é o responsável pelo projeto “Seival e os caminhos de Garibaldi”, que está construindo a réplica do barco, em oficina montada no Centro Municipal de Esportes em Camaquã.

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