Colunistas
Catullo Fernandes - Arte, Cultura e História
Por Catullo Fernandes - Arte, Cultura e História
Pesquisador e poeta

Um ano para esquecer ou um tempo de aprendizado!

Publicado: 11/11/2021 às 14:55 | Fonte: Catullo Fernandes

O ano de 2021 tem sido extremamente difícil... de muitas perdas e danos. Amigos que partiram, alguns em virtude da pandemia outros das mais diferentes formas. Interessante que para nascer só existe um jeito – todos viemos de uma mãe, que generosamente nos traz a esse mundo. Mas para partir o adeus pode ser por morte natural, acidentes, crimes, doenças, enfim. A sabedoria popular é exata e cruel: Para morrer basta estar vivo!

A morte do grande músico e compositor Aldir Blanc, autor do hino da anistia: “O bêbado e a equilibrista”, e na sequência a partida dos grandiosos atores Paulo José e Tarcísio Meira, me comoveram sobremaneira. Recentemente ainda tivemos a morte do ator e comediante Paulo Gustavo, e agora a partida prematura da cantora e compositora Marília Mendonça, ambos com milhões de seguidores nas redes sociais. 

Incrível como pessoas que não conhecemos pessoalmente podem nos impactar tanto. A partida destes grandes nomes da arte e da música brasileira me fez refletir sobre as perdas recentes da família e de amigos queridos. Famosos ou não cada um de nós compõe a sua história, como diz a canção “Tocando em frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira. 

Entre as tristes partidas deste ano duas na família. A simplicidade de meu compadre e cunhado José Carlos - o Zeca deixou um vazio enorme na numerosa família Vargas. E de minha tia Carmozina Pacheco de Medeiros, embora distante nos últimos anos, ficam lembranças maravilhosas da infância. 

Em relação às amizades inesquecíveis! Que falta faz aquela conversa na calçada em frente à sapataria do José Carlos Martins Pinheiro - o Cusco. De nossa querida Dra. Scheila Thofehrn, sempre a cada final de ano, recordarei com muita saudade dos Natais da Nefroclínica. Da poetamiga Evanir Nunes Alves - a Ena ficará a lembrança de sua voz doce e serena. E o que dizer de meu estimado Armindo Jacobsen - o Seu Geada, taxista para todas as horas e do comandante aviador Carlinhos Meireles, grande pensador e intelectual - em qual estrela estarão guardadas nossas conversas e filosofias?

Não bastasse tantas perdas, mais uma para este calendário de despedidas. No dia 05 de novembro partiu um grande amigo de juventude, o Sérgio Bielaski de Matos - Cerração, com apenas 56 anos. Se foi exatamente no dia do aniversário de meu grande amigo atual Álvaro Santestevan, irmão gêmeo do Silvio Meireles. Coincidências da vida ou obra do destino, não importa. Eu e o Sergio, dos 16 até nossos 20 e poucos anos seguíamos um ritual.

Ao som de um toca-fitas e sorvendo um vinho - bebida incomum para os jovens da época - nos encontrávamos quase todas as semanas para falar do futuro, música, eventuais namoradas, e também de futebol (ele gremista e eu colorado). Tínhamos um gosto musical diferente em relação ao nosso grupo de amigos da época. Amávamos os Beatles e Raul Seixas, mas também as músicas românticas dos anos 1970-80 (nacionais e internacionais), e inclusive as instrumentais, como o clássico italiano “Il Silenzio”, obra do trompetista Nini Rosso. Adeus meu amigo, ficou o silêncio...

A verdade é que morremos um pouco a cada perda... No final da história somos sobreviventes de nós mesmos. Por isto aproveitemos este tempo aqui na terra para praticar o bem: plantar árvores, cultivar amigos, escrever e/ou ler versos. Escutar a música que vem do coração. Porque como bem cantou o poeta: “O tempo não para!”

Segue um trecho de “Ressureição”, que escrevi na partida de meu irmão João Francisco, que foi embora com apenas 35 anos.

“Quem perde um grande amigo

perde parte da estrada

Quem perde o amor próprio

torna-se um nada...

Quem sobrevive a tantas perdas

ganha o silêncio da madrugada!”

Clic Sabedoria: “O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.” (Fernando Pessoa)