Colunistas

Meu primeiro amor

11/06/2019 - 16h:39min
Luis Claudio

O ano era de 1973. Eu estava na primeira série. Meu turno era à tarde e minha escola não ficava muito longe mas tinha uma grande avenida movimentada para atravessar. Minha mãe pediu para eu ir na casa da professora Maria Luiza que lecionava na mesma escola, para perguntar se eu poderia ir com ela e com sua filha que estava na mesma aula que eu. Fui correndo na casa dela que era na esquina.

Quando bati na porta, foi amor à primeira vista. A filha da professora abriu a porta com um sorriso lindo mesmo faltando-lhe os dois dentinhos de leite na parte de cima da boca. Estávamos na época de trocar os dentes. Tinha os cabelos pretos bem curtinhos com franja. Ela vestia o uniforme branco com as primeiras letras bordadas no bolso: G.E.B.A. (Grupo Escolar Brum de Azeredo) e uma saia que parecia mais uma gaita entre aberta de cor azul marinho.

Depois daquele dia comecei a sonhar com ela. Naquela época tinha um seriado Japonês do super-herói Nacional Kid. Eu me imaginava voando com ela ao meu lado e lhe dando um beijo como se fosse aquele super-herói. Meu Deus... que amor puro e verdadeiro. Eu, uma criança de 7 anos, não poderia ir muito além de imaginar um toque em sua mão e um simples beijo. Eu sabia bem pouco deste sentimento poderoso, porém, já estava experimentando os primeiros sintomas de uma paixão. Nossas carteiras eram duplas e sentávamos lado a lado.

Ela, por ter uma família de melhores condições do que a minha, sempre levava lanche: uma empada, um pastel, um pedaço de bolo e uma Pepsi para acompanhar. Eu, levava um pedaço de pão com manteiga o qual comia a seco com vergonha somente quando conseguia ficar sozinho. Às vezes, se não tinha a oportunidade de me esconder, o pão acabava voltando intocável sujando as páginas de meu caderno de gordura. Minha mãe me xingava muito por isso. Mas eu nunca iria comer pão com manteiga do lado da Luisinélli!!

Eu tinha vergonha. Voltava com fome para casa, mas não comia mesmo! Minhas tardes eram um conto de fadas cada vez que eu era levado para a escola com a Professora e com a sua linda filha que não poupava sorrisos para mim. Mas um dia, tudo acabou. A mãe dela iria assumir a minha turma e Luisinélli teve que mudar de aula porque a escola não aceitava que uma professora lecionasse para a própria filha. Desde então, não pedimos mais para a professora me levar. Minha mãe me acompanhava todos os dias me distanciando para sempre de meu primeiro amor.

É a segunda vez que comento publicamente sobre isso. Acho que nem minha mãe soube desta atração que tive pela filha da professora. Lá pelos anos 90, chegou-me uma informação de que Luisinéli havia falecido. Fiquei em estado nostálgico e triste em saber que parte de minha história estava morrendo também. Mas esta informação não foi precisa. Depois desta paixão não correspondida, houve outras e mais outras. Cada uma com histórias diferentes mas sempre com o mesmo final, elas seguindo seu caminho e eu, seguindo por outro sozinho levando comigo apenas recordações e sempre com o coração amargurado.

Recordar é viver e hoje depois de todos estes anos, divido com você, nobre leitor, este segredo de menino que estava guardado lá no fundo de meu baú invisível de recordações.

Luis Claudio Cezar e-mail: cezarmastter@yahoo.com.br

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