Colunistas

O Apito do Trem

06/05/2019 - 09h:28min
Luis Claudio

Na rua em que morei quando menino, éramos quase todos filhos de famílias pobres e dividíamos as mesmas dificuldades e também, alimentávamos sonhos que para nossas condições de vida, seriam muito difíceis de se tornarem realidade.

Quando nos perguntavam o que queríamos ser quando crescêssemos, quase todos respondiam: “Eu quero ser Médico”, mas nenhum cursou medicina. Hoje, assistindo os filmes que fiz em outros países, percebo que pelo menos eu, consegui realizar o que era impossível, mas alguns daqueles meus colegas, continuaram pelo caminho da pobreza e um deles perdeu a vida no caminho da marginalidade. No final da rua da vila em que eu morava, havia uma linha férrea.

Sempre que escutávamos o sinal de alerta do trem nós parávamos de brincar e quando o som metálico de dezenas de rodas de ferro tomavam conta do ar e ele como uma grande serpente aparecia no fim da rua. Então nós ficávamos contando atentamente quantos vagões a locomotiva puxava. Eu não lembro mais quantos vagões eram, mas lembro que as vezes eram tantos, que já nem escutávamos mais o motor da locomotiva, e o apito, menos ainda.

Apenas o estrondo das rodas de metal na estrada de ferro. Após a passagem do último vagão, nós seguíamos nossas brincadeiras, sempre conferindo um com o outro quantos vagões tinham passado naquele dia. Durante à noite também o trem passava. Lembro que numa destas noites sentado com meus pais na cozinha à luz de lampião, quando minha mãe comentou que uma vez ouvira gritos durante a passagem do trem e que durante muitos dias havia rumores de que uma mulher tinha se suicidado jogando-se em baixo das rodas do trem.

Infelizmente algumas almas infelizes escolheram acabar com suas vidas desta forma tão triste e, certamente, dolorosa. Com o passar dos anos, mudamos daquela vila para um apartamento não muito distante da antiga casa. De lá também era possível sempre ver e ouvir a passagem do trem. Este som acabou tornando-se normal para nossos ouvidos que nem percebíamos mais. Muitos anos se passaram. Hoje, me encontro residindo em Camaquã, longe de minha cidade Natal e até já tinha esquecido deste capítulo de minha vida.

Foi em um frio inverno quando visitava meus pais, bem de madrugada, quando todos nós dormíamos e o silêncio imperava, que um som familiar invadiu a escuridão do quarto. Um som agudo atravessou a noite e me bombardeou de lembranças. Era novamente aquele mesmo aviso sonoro que me fazia parar de brincar para contar os vagões.

O mesmo som do forte motor da locomotiva seguido pelo ruído metálico das rodas de aço contra os trilhos me despertavam e me fazia relembrar daqueles dias com meu amigos na rua daquela vila em que morava. Meus olhos estavam abertos, mas apenas vultos e sombras cinzentas assombravam as paredes deixando que aquele som familiar me confortasse como uma sinfonia.

Boas lembranças sempre encherão minha alma todas as vezes que eu estiver na casa de meus pais e ouvir aquele som que para tantas pessoas pode ser torturante, mas que para mim, é um dos efeitos sonoros mais belos que me devolve um pouco de minha distante infância.

Experiências de vida de Luis Claudio Cezar e-mail: cezarmastter@yahoo.com.br

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