Colunistas

O Tigre e a Capivara

18/04/2019 - 10h:14min
Luis Claudio

Uma vez eu ouvi um cidadão afirmar que todos nós somos maus. Que todos temos o instinto ruim dentro da gente. Que somente os monges budistas e alguns outros poucos religiosos poderiam estar livres deste sentimento. Eu achei ele extremamente radical. Não me considero uma pessoa má. Acho que o mal pode ser congênito, nascer com a pessoa em alguns casos. Podemos ter como exemplo os psicopatas.

Mas se nascemos normais, tudo depende do tipo de educação que recebemos de nossos pais ou de exemplos de pessoas que interferem em nosso viver. Naturalmente quem teve a infelicidade de nascer em um lar dominado por brigas, desavenças e falta de diálogo, certamente vai ser um encrenqueiro para o resto da vida. Vamos então aos fatos. Era um domingo ou um sábado. Estava um dia muito ensolarado e eu acabara de desembarcar na rodoviária de Pelotas para visitar meus pais.

Ao lado da estação Rodoviária, existem dois pequenos lagos com patos e marrecos. Do outro lado vivem também aprisionados, um avestruz e umas capivaras. Notei que tinha um menino de uns 8 ou 9 anos abaixado e encostado no arame de proteção. Reparei que ele dava alguma coisa para uma capivara comer. Aproximei-me e vi que ele estava oferecendo um canudo de plástico para o animal. A capivara comeu todo aquele material que é extremamente prejudicial para o sistema digestivo de qualquer ser vivo e o menino pela idade, certamente sabia que bem não faz.

A mãe do menino assistia a cena com naturalidade. Então, ela o chamou para irem embora. Antes de seguir com sua mãe o menino cuspiu várias vezes na capivara, chutou o arame de proteção tentando atingir a capivara e gritando algumas palavras como se estivesse ofendendo o animalzinho. Eu imaginei que a mãe do moleque fosse chamar a sua atenção. Mas ela nem ligou. Tomou-o pela mão e saíram tranquilamente enquanto a capivara, irracional e mansamente, terminava de engolir o canudo plástico. Procurei com um olhar mais crítico, avaliar que tipo de pessoas eles podiam ser. Pelas roupas, eram pessoas de classe média. O menino estava bem vestido, penteado e não parecia um garoto malvado.

Mas a sua atitude revelou um grande potencial perverso. Há alguns anos atrás um menino de 11 anos teve seu braço dilacerado por um tigre num zoológico por culpa total do pai que foi irresponsável ao extremo ao deixar uma criança perto de uma fera. A diferença foi que no primeiro caso, o menino foi cruel com uma inofensiva e dócil capivara que dificilmente revidaria com uma agressão instintiva. No caso do segundo menino, pelas noticias veiculadas na TV, ele estava apenas brincado e tentando antes, acariciar um leão. Neste ocorrido, o instinto do tigre deixou o menino sem um braço.

Nos dois acontecimentos houve irresponsabilidade de uma mãe e de um pai. Nunca saberei que tipo de adulto se tornará o primeiro menino. No caso do segundo, acredito que este trágico acontecimento, determinará sua personalidade. Parece que ele soube no hospital que o tigre poderia ser sacrificado. Para a surpresa de muita gente, ele teve a nobre atitude de pedir para que o animal não fosse maltratado. Resumindo: A primeira criança saiu satisfeita por ter prejudicado as entranhas de um animal com um canudo de plástico e por ainda ter cuspido nele. O segundo tentou brincar e ficou sem um braço mas talvez, com um novo coração e parece que será bem maior e mais bondoso do que o de antes. O tempo vai dizer.

Luis Claudio Cezar / e-mail: cezarmastter@yahoo.com.br

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