Colunistas

O Pianista Cheiroso

08/03/2019 - 17h:07min
Luis Claudio

Sei que as histórias de minha vida fazem muito sucesso com meus leitores. Hoje então, vou contar uma que aconteceu em minha adolecência. Sonhar é direito de qualquer pessoa. A gente não paga nada e consegue, através de nossas ilusões, almejar um futuro melhor. Bem, eu tinha certos sonhos difíceis de serem realizados, mas eu insistia para tentar realizá-los mesmo tendo pessoas que riam de minhas ambições.

Uma de minhas ilusões era a de me tornar um grande pianista. Mas de que jeito? Morando numa vila que nem tratamento de esgoto possuía? Residindo num bairro que quando chovia alagava e o barro grudava no calçado. Mesmo assim, um dia eu fui tentar uma chance no Conservatório de Música de Pelotas. Eu já comecei minha procura provocando o riso de um policial quando perguntei a ele onde ficava o Reservatório de Música. Chegando no Conservatório, fui atendido por uma simpática secretária que me conduziu para uma entrevista com a Diretora. Eu, certamente, vestia roupas inadequadas para aquele ambiente que revelava de imediato minha condição de pessoa comum.

A Diretora muito objetiva e apesar de educada, foi curta e direta comigo dizendo que, se eu não tinha piano, eu não conseguiria aprender. Mas eu insisti com minha vontade enorme de ser pianista e disse que utilizaria os pianos do próprio conservatório para praticar. Ela sentiu que não adiantaria em nada seus argumentos e autorizou a minha matrícula. Seis meses depois ela me cumprimentaria depois de minha primeira participação em um recital. Mas teve um dia de aula que foi traumático para mim e, certamente, para a professora. Aquela era uma semana chuvosa. Era um inverno daqueles intensos que aliado a umidade da cidade de Pelotas, tornava a sensação de frio pior ainda. Então os dedos congelavam e era preciso aquecer as mãos primeiro. Isso eu vinha fazendo pela rua com as mãos dentro dos bolsos e com luvas de tricô.

Eu lembro que eu tinha um tênis de imitação linha Topper ou Adidas se não me engano. Era um tênis de futsal, com furos para arejarem os pés por todo o couro. Eu só tinha aquele calçado e foi com o mesmo tênis que eu enfrentei aqueles dias chuvosos. Como não teve sol por aqueles dias, eles estavam úmidos. Mas o pé molhado não seria o problema eu já estava acostumado mas me esqueci de um detalhe que já será revelado. Lembro de minha da Professora Diná, muito elegante e refinada sentada ao meu lado com um casaco preto de pele muito elegante.

A aula transcorria normalmente quando um cheiro de queijo rançoso começou a subir pela gola de minha camisa. Só então notei que aquela chuva da semana, aliada a meu pé aprisionado dentro daqueles tênis úmidos, formaram um cheiro de chulé nauseabundo. Que vergonha que eu senti! Eu encolhia os pés debaixo do banquinho do piano e aquele mal cheiro vinha como ondas que se propagavam a cada tecla que eu batia. Eu pedia a DEUS para que aquela aula acabasse de uma vez para eu me sumir dalí! A professora, coitada, ficou firme suportando o odor que já havia, então, tomado conta da pequena sala de aula.

Para piorar a situação, uma aluna rica muito linda (certamente perfumada) aguardava para iniciar a sua aula sentada bem perto. Eu fico imaginando a professora abrindo as janelas e o comentário que ela deve ter feito com a outra aluna quando eu fui embora. Hoje só me resta dar risadas, lembrando deste constrangedor fato e quem sabe, pedir desculpas para aquela professora se o destino permitir encontrá-la novamente. Hoje, se ainda viva, ela deve estar bem velinha.

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