Colunistas
Nelson Egon Geiger
Por Nelson Egon Geiger
Advogado

O ATUAL DESENCANTO DE SER BANCÁRIO A História Não Contada do BB de Camaquã (VI)

Publicado: 25/06/2021 às 09:04 | Fonte: Nelson Egon Geiger
“Havia um quadro de carreira como hoje não existe mais; as folhas de pagamento eram confeccionadas nas agências. Para a local o funcionário utilizava um método arcaico; absurdo,  resolvido com corte do papel carbono.”

A partir do Plano Cruzado, lançado em 28.02.1986, o Banco sofreu grandes reformas internas. Antes da criação do Banco Central em 31.12.1964 cabia ao BB cuidar da moeda, mais precisamente do dinheiro público. Inclusive da impressão do papel moeda. Controles através da SUMOC (Superintendência da Moeda e do Crédito), órgão interno do Banco. E as movimentações públicas eram efetuadas na famosa conta movimento. Em verdade o caixa único do Governo.

Por isso o Banco mantinha uma elite funcional. Havia um invejável quadro de carreira. A partir de 1957 o servidor ingressava como auxiliar de escriturário. Depois em concurso interno passava para escriturário. Quadro que progressivamente dava salários maiores. No 1º ano era escriturário. Depois passava para escriturário com um ano. Adiante para escriturário A. Mais um ano e escriturário B. Até letra I, depois Conferente, Subchefe e Chefe de Seção. Esse o último grau da carreira.

A partir de escriturário B, para o seguinte (C) o prazo aumentava: no mínimo 02 anos, caso em que exigia merecimento. Até 05 anos. Então poderia ser promovido com 02, 03, 04 ou, no máximo 05 anos. Quem tinha merecimento, por ocupação de cargos ou excelente desempenho poderia ser promovido em menos tempo em direção ao final da carreira.

Moeda estável nessa época (1950/61) e depois, já então no Regime Militar com a 1ª reforma monetária ocorrida em 1967, os aumentos eram os da carreira. Pouco havia de aumentos gerais da classe bancária. Mesmo assim, quando acontecia em nível nacional, implicando os demais Bancos, as faixas de carreira recebiam porcentual do aumento para cada letra.

As folhas de pagamento eram feitas nas agências com cópias para o controle regional (Porto Alegre) e nacional (Rio depois Brasília). A via original ficava no caixa no dia do pagamento.. Eram folhas de papel gigantescas; de largura imensa. Utilizava-se uma máquina de escrever com um enorme carro (rolo) lançando os nomes, em ordem alfabética, cerca de 35 em cada página. No nosso caso, pela quantidade, quase 02 páginas.

Nome, cargo (de carreira), função, salário, adicional do cargo; horas extras e total bruto. Depois: descontos por eventuais faltas, descontos sociais da previdência e complementar; caixa de assistência saúde; imposto de renda, etc. E, finalmente o líquido. Enorme detalhamento.

Era anexada uma 4ª cópia para base da folha do mês seguinte. E aí vem uma história que conto. Nessa época (meados dos anos 60) era confeccionada pelo Jorge. Depois de pronta, conferida e encerrada, o Jorge tomava a 4ª cópia e começa a apagar todos os dados a partir do valor bruto de cada um, provável igual no mês seguinte. Ou seja, apagava as anotações de descontos, cálculos e valor líquido.

Operação que durava dias. Afinal 02 páginas imensas. Trabalho vagaroso, com cuidado para não rasgar (papel fino para cópias a carbono). Dias de labor; uma semana. BEM, o Jorge foi transferido para Porto Alegre. Passaram-me o serviço. Na folha subsequente cortei o papel carbono da 4ª cópia a partir do valor que interessava (bruto) e não precisei apagar nada com borrachas. O arcaico método foi resolvido de forma elementar.

 

EDIÇÀO de 23 de junho de 2021.___.