Colunistas

DOIS ATOS, DOIS FATOS

02/07/2020 - 11h:41min
Nelson Egon Geiger

O jornalista David Coimbra, na ZH de 30 de junho, pág. 35, trouxe uma comparação entre duas reuniões de alta cúpula do Governo Federal em um distanciamento temporal de mais de meio século. Como ele conseguiu não sei, mas comentou sobre a reunião da Presidência da República e Ministérios ocorrida em 13 de dezembro de 1968, falando na gravação do ato. Com mérito de ter conseguido essa gravação. Na época apenas com gravadores de fita cassete. Não havia outro meio, salvo TV ou filmagem.

E comparou com a reunião acontecida no último dia 23 de abril (2020) entre a Presidência e Ministério, onde houve manifestações contra a Justiça, reclamações, palavrões e, após alguns dias, Ministros exonerados: Henrique Mandetta e Sérgio Moro (Saúde e Justiça).

Na 1ª reunião citada o Presidente era o Gen. Arthur da Costa e Silva, eleito indiretamente pelo Colégio Eleitoral, forma do Regime Militar ter substituído as eleições populares. O Vice, Pedro Aleixo era civil, um jurista mineiro. Entre os Ministros Jarbas Passarinho, que era Coronel do Exército, ocupava a pasta da Educação e Delfim Netto, a Fazenda. Considerado um gênio das finanças.

Eu estudava Direito em Pelotas. Viajava de automóvel (a gasolina era barata) em um Gordini. Voltava para Camaquã no sábado (14) e ouvi pelo rádio a leitura do AI 5, famoso instrumento do Regime de Exceção que permitiu cassações de mandatos eletivos, prisões e ações militares.

Pois na dita reunião o único voto contra o AI 5 foi do Vice Presidente Pedro Aleixo. Quando lhe perguntaram se não confiava no Presidente ele respondeu: “Eu não confio é no guarda da esquina”. O Min. Jarbas Passarinho (Educação) teria dito que “às favas nesse momento aos escrúpulos de consciência”. E o Min. Delfim achou pouco endurecimento.

O AI 5 brotou no Governo em razão do Deputado Federal Márcio Moreira Alves, do MDB, ter feito no dia 02 de setembro (1968) um discurso na Câmara considerado ofensivo às forças armadas. Então a Presidência da República pediu autorização ao Congresso para processar o Deputado. O Congresso após dois meses de tramitação negou a licença. Daí se acelerou o AI 5 e já cassando Márcio e outros políticos de oposição.

Já a reunião de 23 de abril desse ano teve conotações parecidas. Contrariedade do Governo e da Presidência a certos atos de pessoas, políticos e Ministros. Pronunciamentos deselegantes e chulos como do Ministro da Educação depois exonerado; reclamações contra o da Justiça, também depois demitido. E da Saúde, idem. Naquela anterior, embora as manifestações duras não houve palavrões; foram mais elegantes. Mas, no fim é isso aí, enquanto o tempo passa a história se repete com algumas nuances diferentes. Mas o que aconteceu uma vez se repete depois.

 

EDIÇÃO de 02 de julho de 2020.

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