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Nelson Egon Geiger
Por Nelson Egon Geiger
Advogado

A HISTÓRIA NÃO CONTADA DO BB DE CAMAQUÃ (X)

Publicado: 10/08/2021 às 14:40 | Fonte: Nelson Egon Geiger

Codificação das Instruções Circulares – CIC; assim se chamava a mais organizada instrução de serviços que um órgão público mantinha internamente no Brasil. Ressalvado o Itamaraty, como entidade com atuação na política externa do País, não sei de alguma outra entidade tão eficiente nessa área. O Congresso, as Assembléias, os Tribunais mantém regimentos internos, todavia não tanto minuciosos.

De tal sorte que, para cada área de atividade, ou necessidade, do Banco havia uma CIC. CIC Cadastro; CIC CREGE CREAI; Serviços Gerais; Almoxarifado; FUNCI.

A última determinava regras aos funcionários, desde o momento da posse, de horário do trabalho, dos salários, férias, comportamento, licenças e, até mesmo, da forma de vestir. Era obrigatório: camisa de colarinho, manga comprida, gravata e paletó. Não necessariamente um terno; todavia casaco sim. Tanto que, foi um avanço quando surgiu a Portaria 1.815, que permitiu “camisa de meia manga, mas branca, com colarinho, sem a gravata” no calor. Decorrência do calor do nordeste e do Rio.

Essa mesma instrução para os funcionários falava na saúde; no afastamento por alguma doença temporária. Que poderia ser definitivo no caso de “funcionário que fosse atingido por “Mal de Hansen”. A lepra naquela época (décadas de 30, 40, 50, 60) ainda não estava erradicada.

As instruções relativas ao Setor de Cadastro também eram detalhistas, na forma de analisar a situação pessoal. Econômica, financeira, patrimonial, familiar, utilização de recursos próprios. A tradição em financiamentos e a forma de atender aos compromissos. Redigida como um capítulo literário. Fazia-se constar como o cliente era produtor rural; por herança ou por aquisição própria. O tempo na atividade. As fichas elaboradas ano a ano. Não estilo atual, assinalada em quadrinhos. Nisso até tem uma historia hilária. O funcionário levou tanto tempo para renovar a ficha de um cliente tradicional. Ao fazer constar: “cliente há 20 anos ....”. 

Como a ficha estava a tanto tempo em sua mesa, o Moreira devolveu o documento ao colega. Cara: bate de novo a 2ª página, “pois já faz 22 anos que ele é cliente do Banco”.

Outro exemplo do cuidado do Banco com suas instruções é o caso específico do Banhado do Colégio. O Banco não emprestava dinheiro para aquisição de terras. Mas no caso específico havia ocorrido a invasão em 1962. Que teve simpatia do Governador de então, Leonel Brizola. 

Na eleição daquele ano ganhou para assumir a partir de 1963, Hildo Meneghetti. Não tinha a mesma inclinação. Restou um impasse. As terras permaneciam ocupadas. Sobreveio a instauração do Regime Militar em 1964. No final desse ano o então Presidente Mal. Castelo Branco promulgou o Estatuto da Terra. A inclinação para negócios rurais favoreceu aos ocupantes. 

Então o Banco criou especialmente para Camaquã, o empréstimo fundiário – EF. E inseriu na CIC CREAI um capítulo para tal tipo de financiamento. Diversos agricultores foram beneficiados. Os empréstimos começaram a sair a partir de 1969, indo até 1972. Com tais valores indenizaram os proprietários que tiveram terras desapropriadas para garantir aquela reforma agrária localizada.

EDIÇÃO DE 11 de agosto de 2021.___.