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Nelson Egon Geiger
Por Nelson Egon Geiger
Advogado

A HISTÓRIA NÃO CONTADA DO BB DE CAMAQUÃ (VIII) - Um incidente na caçamba interna

Publicado: 14/07/2021 às 11:16 | Fonte: Nelson Egon Geiger

O prédio construído na esquina central de Camaquã da época (ainda hoje): Av. Olavo Morais com Pres. Vargas e Praça Donário Lopes, não podia deixar de ser construção funcional; moderna; com recursos de acesso.

Um deles era uma caçamba interna estilo elevador; apenas para pequenos objetos e documentos. Evitando-se ter de ficar algum funcionário subindo e descendo a escada. Como já escrevi: no piso superior estavam o cadastro, a carteira agrícola, o arquivo e o almoxarifado. Além de banheiros: um interno para funcionários e um para clientes. No piso térreo: carteira geral, caixas, casa forte, gerência, subgerência, cozinha e banheiros.

Então havia uma caçamba, quase ao lado da gerência e essa era bem na esquina e próximo à porta para ingresso interno no lado da Av. Olavo Morais. Por ela desciam documentos para os caixas; algum pequeno objeto; material do almoxarifado, etc. Funcionários da área de atendimento aos escriturários durante o expediente remetiam documentos por ela. Os encarregados que mais tempo atendiam essa parte eram o Bastião, na parte de cima e o Pedro no térreo. Ao lado da caçamba havia uma campainha para informar de que havia algo a ser movimentado.

O Bastião tinha ingressado pouco antes de mim no Banco; em 1961. O Pedro muito antes viera de Rio Grande nomeado no tempo de Getúlio Vargas. Esses cargos eram de nomeação direta; não exigiam concurso.  

Bem, o Bastião mandava documentos para baixo, a fim de serem movimentados nos caixas e apertava a campainha. O Pedro os pegava e levava para os caixas. O Pedro que antes trabalhara no Porto em Rio Grande já fora nomeado certa idade e estava há tempos no Banco. Já estava idoso. Caminhava de vagar; com calma; sem pressa.

Sempre o Bastião tocava insistente a campainha. Quando o Pedro se dispunha atender depois de muito soar, então pegava a papelada e gritava no túnel para cima, xingadas ao outro.

“Seu chato; seu fdp; incomodativo; não tem onde enfiar esse dedo que fica só na campainha?” E assim por diante. Todos os dias. E o Bastião ouvia as críticas sem nada falar. Por muito e muito tempo.

Porém um dia o Bastião resolveu reagir: tocou a campainha e ficou esperando o movimento lá em baixo. Quando pegaram os papéis ele gritou: “veio corno, chifrudo, abobado, tu não serve mais para nada; vai te aposentar de uma vez”. 

Ocorre que quem passava no momento da campainha e tomou os papéis era o gerente, Carlos Alberto. Ouviu aquilo tudo e perguntou: “Heim! Que foi; que ouve?”. Para encurtar o caso, durante semanas o Bastião só ia para o Banco quase na hora de abrir o expediente para entrar pela porta da Av. Pres. Vargas, sem passar pela gerência. Não aconteceu nada. O “seu” Carlos era camarada; simples; entendeu o engano. Coisas que ocorreram no trabalho bancário daqueles tempos que não voltam mais.