Colunistas

Calango com Rapadura

30/08/2019 - 08h:40min
Luis Claudio

Para quem não sabe, calango é como chamam os nordestinos aquela lagartixa que fica grudada nas paredes e devoram insetos.

Buscando em minhas memórias fragmentos de minhas viagens por nosso grande Brasil, acendeu em minha mente a viagem que fiz de Pelotas à Belém do Pará em 1990. Foram vários dias de ônibus parando para descansar em Brasília e Imperatriz do Maranhão. E foi em Imperatriz que aconteceu algo que levou-me a dar o título a coluna desta semana. A cidade de Imperatriz naquele ano de 1990, pareceu-me uma imensa favela. A pobreza era dominante. Era difícil até diferenciar um pedinte de um cidadão trabalhador, pois as vestimentas eram tão humildes, que tornavam todos muito semelhantes naquele cenário de miséria e sofrimento. Durante a viagem, fiz amizade com um jovem que convidou-me para almoçar em sua casa. Fiquei impressionado em ver tanta gente morando junto. Pais, avós irmãos, filhos, esposa, sobrinhos, netos, enfim, uma família inteira convivendo dia-a-dia sob o mesmo teto. Após um banho com água de balde, sentei-me junto a pequena mesa para uma refeição simples. O arroz era o que costumamos aqui, alimentar cães. O pequeno bife era torrado. O suco de maracujá e a salada de palmito foram os únicos ingredientes que consegui consumir. Até porque o calor era tão intenso, que a fome dava lugar a uma sede sem fim. Fiquei muito comovido com a hospitalidade daquelas pessoas das quais não lembro mais nem o nome, mas que colocaram em prática o verdadeiro Cristianismo, pois eu era um forasteiro e eles me deram alimento e abrigo. A tarde tive que aceitar a carona de moto de um matador de aluguel que insistiu me levar até a Igreja Luterana, onde meu amigo Marcos me aguardava para seguirmos para Belém. Despedi-me do homem sem olhar em seus olhos, pois o mesmo, falava comigo sempre de cabeça baixa e desviando o olhar. Após passar a noite na casa do Pastor, fui para a rodoviária para prosseguir a viagem. Entre muitos infelizes que me abordaram pedindo esmolas, uma figura esquelética se destacou. Um homem barbudo com rosto murcho e sujo me pediu dinheiro e disse que tinha vindo do interior e que por lá precisava comer calango com rapadura. Percebi que poucos dentes ajudavam a arremedar um sorriso naquele sofrido olhar. A fome nunca foi tão explícita naquela realidade inacreditável que chegava ao ponto de fazer um homem comer um bicho gosmento com rapadura.

Prefiro acreditar que as coisas tenham melhorado para aqueles brasileiros lá do nordeste e que esta minha lembrança faça despertar em você, nobre leitor, o desejo de agradecer todos os dias pelo alimento. Pois, eu envergonhado, preciso revelar que apesar de ter tido esta experiência, raramente lembro de agradecer Nosso Senhor pelo alimento que por Sua infinita bondade, nunca permitiu faltar em minha mesa.

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