Colunistas

O Pano do Guarda-Chuva

26/05/2019 - 15h:06min
Luis Claudio

Na rua em que morávamos havia vários terrenos baldios. Mas tinha um lugar especial o qual se destacava de todos. O campo de exercícios militares do Batalhão Tuiutí localizado bem atrás de minha casa. Chamávamos o imenso terreno de Môrro.

Aquele campo era quase um lugar místico que até medo nos causava quando encontrávamos cartuchos antigos de projéteis deflagrados pelos fuzis que tanto nos assustavam os quais os soldados sempre empunhavam enquanto faziam a guarda da vila militar onde éramos proibidos de entrar.

Ali soltávamos pandorga e brincávamos de esconder. Muitas brigas boas foram travadas naquele refúgio de muléques . Inclusive uma das melhores foi quando eu e o Nando que morava na esquina nos enfrentamos quando eu, milagrosamente, levei a melhor. Até hoje eu lembro do Téda gritando correndo pelo campo “Henrique, Henrique, o Cacáio tirou sangue do Nando!!!”. Naquele dia eu adquiri respeito dos valentões da vila, porque o Nando era um dos mais temidos de nossa turma.

Aquela surra que dei nele foi surpresa para todos pois normalmente eu era um dos fracos que mais apanhava dos outros. Que triunfo foi ver aquele valentão cuspindo vermelho no chão enquanto eu dizia “Só não te bato mais porque não gosto de bater em criança.” Hoje se o destino me fizesse encontrar com o Nando certamente apertaríamos nossas mãos e daríamos muita risada da sorte que eu tive naquela tarde de Sol. Foi bem perto daquele mesmo lugar num final de tarde que tive um momento de felicidade e fantasia .

Entre um monte de lixo estava um guarda chuva velho dos grandes semi enterrado na areia. Com cuidado o retirei do meio dos entulhos, bati a areia e o barro que o cobria e cuidadosamente, removi o pano da armação de arame. Naquele momento aquele velho e sujo pano não era mais um simples tecido. Quando o amarrei nas costas e estufei o peito em cima de um pequeno monte de entulhos, ele virou uma capa de um Super-Herói. Com as mãos na cintura senti uma sensação de controle sobre todo o mau. Eu já não era mais um menino fraco e feio. Naquele instante de ilusão eu me transformei no Batman.

Com aquele sentimento de poder infinito eu corria de um lado para o outro. Ou melhor, eu não corria. Eu voava apesar de saber que o Batman não tinha este poder. Com os braços abertos e correndo de um lado para o outro eu sentia o vento no rosto e mais alto eu voava em minha imaginação. Naquele final de tarde no campo abandonado da rua Dr. Darcy Xavier, ninguém soube que eu tinha a missão de livrar todos os meus amigos e vizinhos de qualquer perigo que se aproximasse de nossa vila. Eu era o Herói da rua. Voltei para casa triunfante.

Mas no que cheguei perto da porta uma voz feminina e austera me repreendeu: “Luis Claudio, tira este pano velho e sujo das costas e vai lavar teus pés e passa pra dentro pra fazer teus temas da escola!” Foi assim que minha mãe acabou com meu dia de herói com aquele velho, sujo e maravilhoso pano de guarda-chuva.

 

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