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Blefe ou coragem de encarar a realidade?

12/03/2019 - 10h:01min
Mateus Lopes - Nissul Renault

Blefe


Se você acha que a indústria automotiva no Brasil é privilegiada e quem tem coragem de falar o contrário está blefando, pense de novo.

Em 2013, após 13 anos consecutivos de crescimento, o mercado brasileiro atingiu o seu recorde histórico com 3,8 milhões de veículos vendidos. Mesmo neste contexto as margens não foram satisfatórias. Em muitos casos não cobriram o custo do capital investido. Então, teve início a crise de 2014. O real desvalorizou 95% e o volume de vendas caiu 47%, com perdas na ordem de bilhões de dólares.

De lá para cá, a recuperação tem sido mais lenta do que o previsto e a maioria das marcas não tem rentabilidade no negócio.

As matrizes das montadoras aportaram mais de R$ 50 bilhões no Brasil em 2018 para continuar operando no país, em um mercado que cresceu 14,6%.

Por quê? Em uma indústria centenária, que supostamente goza de incentivos fiscais, em um mercado que está crescendo dois dígitos, como as empresas podem estar perdendo dinheiro? E, se estão, por que seguem investindo sem retorno?

Primeiro vamos às causas. Falar em incentivos fiscais quando se tem uma carga tributária direta absurda, que varia entre 37% e 44% dependendo da cilindrada do motor do veículo, não é sério. Isso considerando só os impostos diretos: IPI, ICMS, PIS e Cofins. Nos Estados Unidos, por exemplo, esse percentual é 7%.

Todos os encargos sobre a produção de um veículo chegam a 50%. Ou seja, metade do preço de um carro é imposto.

Os custos trabalhistas, mesmo após a recente e importante reforma, fazem com que a empresa pague 105% de encargos sobre os salários. A cada R$ 1.000 que ganha o trabalhador, o custo para o empregador é de R$ 2.050, e a longa cadeia da indústria automotiva usa muita mão de obra.

A indústria e seus fornecedores têm brutal investimento em tecnologia, prédios, máquinas e equipamentos que exigem enormes somas de capital. Os juros no Brasil são quatro a cinco vezes maiores que os praticados em grandes países produtores de automóveis.

Nossos custos logísticos são 45% maiores do que nos Estados Unidos. Soma-se isso aos graves problemas de infraestrutura e à dependência de um único modal.

O preço da nossa energia elétrica está entre os mais altos do mundo. Chega a ser mais que o dobro dos Estados Unidos.

Com tudo isso, as operações brasileiras da indústria estão dando prejuízo às matrizes há anos ou, no máximo, lucros marginais que não cobrem o custo de capital mínimo esperado para o risco do investimento.

Todos os encargos sobre a produção de um veículo chegam a 50%. Ou seja, metade do preço de um carro

Nós somos tão impactados com essa falta de competitividade gerada por questões macroeconômicas, e há tanto tempo, que nos condicionamos a compensar as desvantagens estruturais e tributárias com eficiência produtiva. Nossas fábricas são referência mundial em eficiência e produtividade. Nosso dever de casa já está feito e mesmo assim as contas não fecham.

Investir nessa indústria deveria ser uma decisão racional de risco de aporte de capital, como qualquer outra. Mas não é. Não por acaso, não temos nenhuma montadora nacional.

E por que as empresas continuam operando? Os argumentos são diversos. Alguns dos meus favoritos são: "precisamos atender nossos clientes onde quer que eles estejam e eles estão aqui" ou "o custo de fechar é maior do que seguir operando no vermelho".

Isso é uma insensatez. Estamos racionalizando a loucura de pedir a investidores que aportem capital para perder dinheiro no Brasil. Mais que uma irresponsabilidade, esse modelo é insustentável.

O melhor momento para transformar esse cenário foi no passado. O segundo melhor é agora. Chegou a hora de falarmos sobre a sustentabilidade da indústria automotiva no Brasil.

Esta não é uma tarefa para uma única empresa. É um movimento setorial, de toda a indústria, que emprega milhões de brasileiros e gera bilhões em impostos.

Precisamos criar uma base de manufatura competitiva, nos preparando para a abertura do mercado e aproveitando a grande capacidade de produção instalada para programas de exportação que nos protejam contra a flutuação cambial.

O mercado interno brasileiro é importante, porém a custosa capacidade instalada que temos traz uma enorme oportunidade para exportarmos quando os encargos forem competitivos.

Alguém pode levantar a mão aqui e dizer: mas o Brasil exporta carros! Sim, exportamos, mas pouco e majoritariamente para a própria América do Sul, cujas moedas são equivalentes ao real e, por isso, não geram "hedge" cambial.

Devemos ser a única indústria no mundo que, com capacidade instalada de quatro milhões de unidades, não consegue exportar volumes significativos e ter um retorno razoável sobre o investimento.

Para isso, é necessária uma política de impostos específica para desonerar os produtos destinados somente à exportação. Com a nossa alta eficiência, uma vez retirada essa oneração tributária, seremos ainda mais competitivos para fabricar carros para o mundo inteiro.

Precisamos ter juros compatíveis com o mercado internacional, reduzir nosso altíssimo custo logístico, incluindo diversificação de modais. Necessitamos tirar do papel uma verdadeira reforma tributária, reduzindo a complexidade do sistema e diminuindo os encargos sobre a folha de pagamento.

Se globalmente estamos discutindo o futuro da mobilidade pessoal e caminhando para um mundo com zero acidente, zero emissão e zero congestionamento, aqui temos de fazer uma revolução do nosso modelo de negócio. Vamos criar a condição que nos permita trazer ainda mais investimentos para o Brasil. Temos uma grande chance de criar mais empregos, gerar crescimento e desenvolvimento tecnológico.

É preciso união de todos os impactados: montadoras, sindicatos, fornecedores, concessionários e governo. Juntos, podemos fazer diferente e virar esse jogo. Sabemos que todas essas são questões difíceis. Por isso, devemos atacá-las em vez de contorná-las.

Quero fazer uma provocação. A Coreia do Sul produz quatro milhões de carros por ano e destina a vendas internas somente um milhão. No Mercosul, somados Brasil e Argentina, fabricamos 3,5 milhões e vendemos tudo internamente. Seguindo o modelo coreano, podemos chegar a 12 milhões ao ano, gerando uma oportunidade histórica de crescimento para o país.

Esta é a hora. Vamos encarar de frente os problemas. Blefar seria não fazer diferente. Mostremos para o mundo que o Brasil é capaz de se reinventar e realizar uma verdadeira transformação neste mercado. Ainda há tempo de aproveitar esta grande oportunidade.

Valor Econômico - Carlos Zarlenga

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