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Nelson Egon Geiger
Por Nelson Egon Geiger
Advogado

A HISTÓRIA NÃO CONTADA DO BB DE CAMAQUÃ (XI) - O episódio da Legalidade -

Publicado: 10/09/2021 às 10:11 | Fonte: Nelson Egon Geiger
“O episódio da Legalidade, ao final de agosto e início de setembro de 1961 está muito bem contado, passados 60 anos, na ZH de 29.08.2021. O que isso tem a ver com a nosso historia? Só pessoalmente; como conto”.

O concurso foi em Bagé, em abril de 1961. Divulgado o resultado e aprovado culminei em ser chamado para me apresentar na Agência Central de Porto Alegre, onde residia no final de julho. Enquanto providenciava nos documentos e exame médico designado pelo Banco, em agosto, sobreveio a renúncia do Presidente Janio Quadros, dia 25.

Na época o Vice-Presidente João Goulart estava em viagem diplomática à China. Setores militares se movimentaram no sentido de impedir sua posse, que era constitucional. O Governador do Estado era Leonel Brizola, casado com dona Neuza, irmã de Jango. Protestou contra a movimentação militar e culminou em instalar uma resistência no Estado, com sede no Palácio Piratini. Tal se prolongou até início de setembro.

A Presidência estava sendo ocupada pelo Deputado Ranieri Mazzilli enquanto a crise esquentava. O Presidente constitucional era o Vice na vaga do titular. Jango acautelou-se no retorno ao saber da oposição das forças armadas à sua posse. De Pequim rumou para Paris; daí para Nova Iorque; depois para Buenos Aires, aonde chegou em 31 de agosto. 

Nesse meio tempo “esquentava” a resistência brizolista. Decretou intervenção na Rádio Guaíba, da Empresa Caldas Junior, mais poderosa do Estado na época. Levou parte da aparelhagem para o Palácio. Lá chamou de “rádio legalidade” e fazia chamamentos à população. Teve apoio no Comando Militar do Sul, através do Gen. Machado Lopes.

Zero Hora do dia 28 e 29 de agosto último, no suplemento DOC conta em 02 páginas detalhes da história real. Vale a pena ler. Como eu então morava em Porto Alegre e trabalhava na Rua Siqueira Campos, não estava longe do Palácio. Pude ver movimentações, exatamente, por os quartéis estarem próximos. Até vôos de aviões da Aeronáutica sobre aquela zona. Havia certa tensão. Eminência de uma guerra civil.   

Na esquina da Av. Borges de Medeiros com a Rua Andrade Neves existia o famoso “mata borrão” prédio que tinha esse formato, envidraçado; era algum órgão do Estado. Anos depois, derrubado, deu lugar ao edifício alto que foi sede da antiga CRT e, em certa época, da PGE.

Ali, naquele velho edifício colhiam-se inscrições para quem quisesse, caso necessário, à resistência armada para garantir a posse de Jango. Cumpri minha obrigação de ter votado, em 1960, no Vice. Explico: o voto era desvinculado. Votava-se para Presidente e depois para Vice-Presidente. Eu tinha votado no Gen. Teixeira Lott e em João Goulart. O general perdeu para Jânio; mas Jango ganhou de Milton Campos.

A crise foi contornada com a diplomacia do grande Tancredo Neves, então Deputado Federal por Minas Gerais. O Congresso às pressas votou uma Emenda Parlamentarista e Jango assumiu nesse Regime. 

O que isso tem a ver com a nossa história do BB de Camaquã? Muito pouco. Apenas comigo. Porquanto a papelada que estava preparando ficou suspensa uns tempos enquanto se adequava o novo Regime Constitucional. Em outubro fui novamente chamado para continuar a documentação. Na ocasião me informaram: “vais assumir na agência de Camaquã”. 


EDIÇÃO DE 08 de setembro de 2021.__.